Meu Vô, a caderneta e minha carreira…

Lendo a história da caderneta, do senhor José Beira, tive duas ótimas lembranças: a primeira do meu Vô, falecido aos 72 anos, marido da minha Vó, essa que atualmente tem 107 anos, era ele que dizia "tenho 7 profissões e 14 necessidades", sabedoria antiga que é muito válida nos dias atuais. Bem, ele tinha, aliás, teve, duas mercearias, ou “coaps", não sei o porquê até hoje, vendia de tudo, ou quase, ou sob encomenda, na Vila Sofia (Avenida Nossa Senhora do Sabará) ou lá na Pedreira Mar Paulista (próximo do Eldorado). Naquela época era tudo a granel e havia poucos fornecedores de cada segmento, eram marcas consagradas. Poucas sobreviveram, ou quase nenhuma, alguns produtos eram embrulhados em jornal, tinha que pesar naquela balança Filizolla, que existe até hoje. Vendia muito o açúcar Cristal, café tinha que moer, leite era no litro, manteiga era um sufoco, tinha que pesar, assim como a banha. Papel higiênico só Guri ou Primavera, chiclete Pingue-Pongue, e aquelas latas de massa de tomate Elefante, achava o máximo, ou Peixe, não sei qual era da marca Cica. Bem, mais o que nunca mais vou esquecer era o código de barra do meu querido Vô, Angelo Zanoni Giglio, ou o código que só eu e ele sabíamos. Há pouco tempo atrás revelei para uns parentes. Quando nós estávamos na frente dos fregueses, ele falava comigo na linguagem do "P". Mas isso é outra história, era para os fregueses não saberem do que se tratava. Mas vou aqui revelar o tal código: temos a palavra livramento, essa palavra tem 10 letras, quando chegava uma caixa de massa de tomate (tudo era codificado, eu ficava muito p…) tinha que escrever em cada lata, se a lata custava 120,00 (custo) punha assim LI0=120. Para vender era assim, punha a letra 0-LTO, então a letra O era para venda, assim nós calculávamos o desconto que podíamos dar: 120,00=LIO custo, para venda O-LTO=190,00, fácil não? Havia dois empregados, porque os dias 10 e 25 de todo mês eram dias de pagamento, e pico nas vendas, porque os fregueses iam fazer o pagamento das cadernetas. Era só alegria e confiança, não me lembro do meu Vô ter tomado um calote. Tudo em dinheiro, nem assalto sofremos, graças a Deus, ficava com meu Vô nos finais de semana, nas férias, enfim, quando podia. Era assim, gostava muito, e mais ainda quando ele me dava dinheiro, comia muitos doces, maria-mole, paçoquinha, tinha caixinhas-da-sorte, doce de batata. Às vezes esquecia de marcar ou marcava a mais, no dia do pagamento os fregueses reclamavam, mas meu Vô, como um bom comerciante, tocava o negócio, e por muitos anos. Foi aí que comecei a me interessar pela área comercial. Tinha que entregar em casa nos carrinhos de rolemã, de pedreiros, enfim, era muito legal. Bancos nem pensar, meu Vô emprestava dinheiro e marcava na caderneta, nunca ninguém perdeu a famosa, lá em Sorocaba conheço um mercado que ainda vende assim.
Caderneta tem lá suas histórias e recordações…
Onde o senhor estiver, Vô, nunca te esquecerei.

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