Nos anos 1949, 1950, eu morei com meus tios na Rua Luiz Gama, quase esquina com a Avenida do Estado, Cambuci. Na verdade não era uma casa, era um quartinho sem janelas junto a outros 10 ou 12 quartos iguais que tinham para uso em comum uma só privada.
No quintal da dona Jacoma, como era chamado o local, na hora do banho semanal, minha tia me colocava para fora do quarto para que o meu tio pudesse se banhar usando uma enorme tigela de 1001 utilidades. O pinico era usado de maneira comunitária entre nós três, e pela manhã era despejado todo dejeto na privada do quintal e devolvido para debaixo da cama. Aliás, só havia uma cama no quarto, cujo colchão velho nós dividíamos com centenas, pra não dizer milhares de pulgas.
Minha pobre camisinha (camisa de criança, bem entendido) era uma segunda moradia desses malditos insetos. Mas isso não tinha a menor importância. Importância tinha, e muita, o rádio do vizinho com o locutor transmitindo Corinthians X Palmeiras (lembrei-me disso lendo uma crônica de um colega aqui neste site). Meus tios eram muito pobres. Minha tia lavava roupas para algumas vizinhas burguesas. Ganhava uma miséria. Karl Marx tinha razão, o burguês explorando o proletariado. Meu tio, ex-artista teatral, trabalhava vez ou outra como barbeiro. Não sei das suas qualidades como ator, mas como barbeiro parecia ser bom, pois o dono da barbearia vivia reclamando: ah se o Antonio trabalhasse pelo menos aos sábados, dizia ele. Claro que não vou falar mal dos meus tios, mas que era difícil pegar uns trocados para ir na matiné do Cine Santo Antonio, era.
As famílias do nosso cortiço eram compostas de italianos e espanhóis, mas tinha uma exceção: um casal de alemães. Ele vivia falando mal do meu tio e comentava com a esposa: bleib im dunkeln unerfahren, mag von tag zu tag leben (em português: eles vivem na ignorância, na sombra, a mercê dos dias e do tempo). Me perdoem a fraca tradução, sou fraco na língua germânica, meu forte é o grego.
Pois foi nessa mesma rua e nessa mesma época que eu vi pela primeira vez um zeppelin. Dizem, não sei se é verdade.
Havia uma menina que morava no mesmo cortiço, Ritinha era seu nome, e foi minha segunda namorada. Eu tinha 7 anos, em 1949, e gostei muito dessa menina. Os tios dela, pensando que éramos inocentes ainda botavam fogo dizendo: Paquito, dá um beijo na Ritinha, dá. Eu, me fazendo de bobinho respondia: para com isso, seu Zé, para. Mas sempre que aparecia uma oportunidade estava eu mais a Ritinha trocando mil beijos e promessas que nunca iríamos cumprir. Ah, que saudades da Rita. Onde estará você agora Rita?
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