Quando eu era pequeno, meu pai dizia que a Praça da Bandeira era o Largo do Picles. Isso devido ao charco que ficava quando chovia. Nem carroça passava, segundo ele. Anos mais tarde, eu passava por lá todos os dias a caminho da escola. Via a praça com aquele terrão vermelho, alguns bancos, poucas árvores, grama quase não tinha. Seguindo por aquele terrão, dava na porta do Teatro de Alumínio, bastante comprido, de cor prateada, como se realmente fosse de alumínio sua cobertura. De repente, ao passar por lá não vi mais o teatro. Nem sei para onde ele foi, ou se realmente ele teve vida em outro lugar. A única coisa que me lembro de estar na porta dele era que quem tinha a concessão do teatro era a Nicete Bruno. Uma jovem de cabelos loiros, que vivia rindo. Depois, ao fazer uma pesquisa, deparei-me com o Largo do Piques, que meu pai chamava de Picles. Picles era um composto de cenoura, batata, pimenta vermelha, chuchu, cebolas minúsculas e alho. Tudo envelhecido no óleo, com vinagre e sal, para apimentar a cachaça nos domingos de festas e guarda.<br>O Largo do Piques abrangia a Praça da Bandeira, a Rua Formosa e onde hoje ainda tem a torre de alvenaria (pirâmide) onde, dizem, tinha a forca no tempo da pena de morte (na certa, apenas folclore).<br>Eis a pesquisa: no Largo do Piques se faziam semanalmente os leilões de escravos. Junto à Pirâmide do Piques, ou Obelisco da Memória, existe hoje o Largo da Memória. Alguns cronistas chegam a interpretar que o nome pique teria sido dado ao lugar em razão da brincadeira das crianças, que ali praticavam o “pique”. Também conhecido posteriormente como brincadeira de pegador.<br>Qualquer descida para aquele centro do vale era a pique. Esta locução adverbial – a pique – degenerou, na gíria popular, para simplesmente pique, ou piques, sendo todas as ladeiras piques. A confluência dos piques determinou a generalização do nome a tudo ao redor, ao largo. Surgiu a denominação genérica: Largo do Piques, isto é, Piques. Junto à Pirâmide do Piques, ou Obelisco da Memória, existe hoje o Largo da Memória.<br>A principal função do Largo não era só ligada ao comércio de escravos, mas sim ao movimento de tropas. Esse movimento era tão freqüente que houve, inclusive, em meados do século passado, um estabelecimento de fazendas a varejo que tomou o nome da Loja dos Tropeiros. E era também nesse mesmo local que se erguia um vasto rancho, que servia de pousada aos que vinham das bandas de Sorocaba a fim de vender, aqui, seus animais, preferindo expô-los no Largo do Piques, onde se realizava, em dias certos, uma espécie de feira livre.<br>Mas, ao mesmo tempo que funcionava como ponto de irradiação dos caminhos de ligação com o sertão, o Piques era também zona de baixa prostituição, com pretas sentadas em cadeiras nas calçadas, sendo conhecido como "baixo Piques".<br>Mais tarde ela ficou conhecida como Praça da Bandeira, que chegou a ter a bandeira, que depois de anos ficou ausente, até o inicio deste mês. Depois de muita reclamação, a bandeira voltou a tremular, com um mastro de 72 metros de altura e muito bonito.<br><br>e-mail do autor: [email protected]