Revivendo memórias

Mês passado, conversando com amigos, fui informado de que o Som de Cristal havia reaberto suas portas.
Um mundo de lembranças povoou de imediato minha mente. A casa que me havia aberto a estrada para a vida noturna, o salão onde eu pude aplicar toda a minha capacidade de bailarino, a gafieira mais tradicional de São Paulo, estava de volta.
O endereço novo me foi passado e, lá no fundinho da minha consciência, prometi que um dia iria até lá, nem que fosse, ao menos, para matar minha curiosidade.
A promessa feita calou fundo e todos os dias voltava ao centro de minhas idéias. Eu, residindo em Praia Grande, não criava coragem para me aventurar numa subida ao planalto e, consequentemente, uma investida ao novo Som de Cristal que estava, agora, na Rua Antônio de Barros, esquina com a Avenida Celso Garcia.
Novamente o destino teceu suas tramas e me surgiu um convite para, enquanto nenhum trabalho profissional mais efetivo viesse a aparecer, assessorar uma antiga conhecida no seu escritório de advocacia em São Paulo. Sem nada a perder, aceitei o convite e passei a ficar em Sampa de 2ª a 5ª feira de cada semana.
Então, estava definida a oportunidade para visitar o Som de Cristal. Obtive, através de pesquisas, informações sobre as atividades dançantes da gafieira e fiquei sabendo que ela abria suas portas de 5ªs, 6ªs, sábados e domingos.
Pronto, de posse de todas essas informações, nada mais restava a não ser marcar a data da minha incursão. Assim sendo, defini, e a noite de 21 de fevereiro foi a escolhida.
Antes de sair do escritório, troquei de camisa, me perfumei um pouco e fui em busca do metrô que me levaria da estação República até a estação Carrão.
Por volta das 19 horas, chego ao endereço de destino, as escadarias, em dois lances, lembram parcialmente as escadarias do antigo salão, respiro fundo e inicio a escalada ensaiando algumas frases que pudessem justificar minha presença se viesse a esbarrar com algum antigo freqüentador.
O pequeno balcão de recepção surge à minha frente e de dentro dele, uma morena abre um grande sorriso e me diz: “Chammas, o que você está fazendo aqui?”, enquanto se levanta e me da um beijo no rosto. Ela era nada mais nada menos do que minha querida amiga Sônia que durante muitos anos trabalhou no Sport Club Corinthians Paulista, onde fui o contador por 16 longos anos.
Como resposta disse: “estou voltando às minhas origens. Estou de volta aonde tudo começou…”.
Depois de um papo animado onde fiquei sabendo que o Som de Cristal agora estava sob o comando do irmão dela, aluguei uma mesa e me introduzi no salão.
Embora com uma decoração agradável e uma pista de dança de qualidade superior, o salão não tem o fulgor do antigo, pode ser que o dia não seja o de melhor presença, a chuva que caía também poderia estar atrapalhando.
Tomo uma cerveja e “assunto” as damas para identificar as que sabem dançar. Depois de algum tempo tento dançar e, como acontece naturalmente em qualquer gafieira, sou rejeitado. Ninguém me conhece e me vejo obrigado a tentar “mostrar baile”, várias tentativas são efetuadas e totalmente rechaçadas pelas damas. Enfim, vislumbro a possibilidade de sair dançando com uma nissei, convido-a, ela aceita, mas antes de entrarmos na pista me pede para não figurar nos passos, pois ela ainda estava aprendendo.
Concordo com o pedido e saímos dançando, a seleção é de chá-chá-chás e dançamos soltos, rodopiando pelo salão. Reparo, então, ter despertado interesse em damas que haviam recusado meu convite. Finda a seleção, agradeço minha dama e decido ir embora, castigando, assim, aquelas que me recusaram.
Sei que outra noite, quando ali voltar, já não serei mais um estranho no ninho, e poderei curtir bons momentos dançantes.
Novo Som de Cristal, este velho se despede com a certeza de que os antigos costumes ainda estão preservados por que “na gafieira segue o baile calmamente…”.

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