Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

Sem medo de errar, nem de ser acusado de versar em causa própria, tenho a ousadia de tentar contar um pouco do ineditismo e marco da história cultural e estudantil de São Paulo.
Foi o sonho do idealizador Cásper Líbero, que em suas disposições testamentárias consignou recursos orçamentários para que a Fundação Cásper Líbero criasse um curso de jornalismo.
Assim, em 1947, através do decreto n° 23.087, o presidente Eurico Gaspar Dutra, autorizava o funcionamento do curso de jornalismo da fundação Cásper Líbero, curso esse integrado à Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade Católica de São Paulo, primeiro curso de jornalismo da América Latina.
Em 1972, já desligada da PUC, têm início os cursos de Publicidade e Propaganda e Relações Públicas.
Pela tradição, pelas mensalidades relativamente baratas e por disponibilizar laboratórios práticos e estágios no jornal, rádio e televisão do Grupo Gazeta, os cursos eram bem procurados e não era tão fácil de ingressar.
Até hoje o curso de jornalismo da Cásper Líbero é um dos mais procurados do Brasil.
Entre os alunos havia uma mescla enorme de objetivos. Jogadores de futebol que buscavam cultura e posteriormente ter profissão após o encerramento de carreira, aproveitando a fama adquirida nos gramados. Jornalistas já atuantes, porém sem título universitário, rebeldes típicos dos anos de chumbo, e mesmo os que buscavam “glamour” e sucesso prometidos pelo milagre brasileiro nas profissões, especialmente jornalismo, publicidade e propaganda.
Lá vivi minhas maiores emoções e conhecimento. Tudo era novo. O prédio da Paulista 900, erguido e não acabado. Os cinemas, teatros, barzinhos e a proximidade com pessoas conhecidas, tudo isso regado a uma época romântica em que se podia viver alienado, com certa segurança e caminhar na grande avenida e imediações sem maiores riscos, ou engajar-se em movimentos estudantis que clamavam por liberdade.
Fiz um pouco de cada coisa. Aproveitei cada segundo. Num primeiro momento fui da ala dos deslumbrados e alienados. Curti bastante. Conheci muita gente interessante, bares, teatros e reuniões tipicamente de jovens felizes.
Num segundo momento, fui atraído pelo movimento de resistência estudantil. Fiz parte do diretório acadêmico, participei de passeatas e atos de rebeldia, inclusive com alunos de outras faculdades, especialmente o pessoal das Ciências Sociais da USP.
Foi um sonho, não sei se aprendi a escrever melhor ou adquiri alguma cultura, porém tenho certeza absoluta que vivi intensamente estes breves anos.
Quero prestar algumas homenagens a pessoas que me marcaram.
Primeiro nosso diretor, extremamente correto e sábio, Prof. Erasmo Nuzzi, que tinha muito trabalho, mas nunca se deixou levar pelas truculências que a época propiciava. Sempre foi conciliador.
Outro de quem sempre me lembro é o professor Péricles Eugenio da Silva Ramos, que sempre repetia, após ler minhas redações, que eu não tinha cara de quem tirava nota 7 com ele (que era excelente em sua avaliação).
O professor Ebrahim Ramadan, então editor do jornal Notícias Populares, aquele que se torcesse pingava sangue, foi também importante. Ele nos ensinou que os grandes títulos de jornal ou revista são conseguidos consultando o povo. Freqüentemente consultava as camadas baixas da população, seu público alvo, sobre um determinado assunto ou qual manchete sugeria. Aí surgiram algumas “pérolas” do NP. Quem não as lia e se divertia que atire a primeira pedra.
Outro professor marcante foi José Salvador Faro, de Economia, que na época estudava na USP e auxiliava com dinheiro um fundo para familiares de presos ou desaparecidos políticos. Foi preso por isso, obrigado a se retratar e a desabonar os movimentos estudantis, clandestinos e comunistas em matéria publicada nos grandes jornais de São Paulo. Foi solto, voltou a lecionar, mas, pelo menos na época em que foi meu professor, tornou-se uma pessoa triste, ele que antes ensinava economia de uma forma alegre, descontraída e didática, o que nos fazia respeitá-lo, admirá-lo e ter gosto pelo assunto.
Wilson Silva Maux, outro professor, um ser humano fantástico, emotivo, embora profundamente triste com a situação política. Uma vez me confidenciou num barzinho que freqüentávamos após as aulas, que só se sentia vivo quando ouvia Violeta Parra cantando Gracias a La Vida.
Estes citados são apenas alguns dos muitos mestres: jornalistas famosos, escritores, poetas, políticos etc. Foram marcantes e inesquecíveis, porém não é possível discorrer sobre todos no momento.
Quanto aos alunos, vários se tornaram pessoas importantes, muitos atuam hoje com destaque nas rádios, televisão e empresas de publicidade. A Cásper Líbero é pródiga em revelar talentos.
Quero citar apenas, in memoriam, Juvenal Neto, “o Poeta”, como gostava de ser chamado. Meu colega de classe e diretório, meu ídolo eterno, pessoa pura e de imenso talento, que não chegou a ser plenamente reconhecido. Juvenal nos deixou em 15 de abril de 1990 com apenas 34 anos.
Para homenageá-lo, cito abaixo uma estrofe do seu poema "Quando Morrer":

Em vida ouvi Mozart
na morte quero Beattles
e um baile
antes de minhas cinzas lançadas
na Avenida Paulista,
onde passearam meus sonhos de domingo.

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