O Restaurante Giratório

Ano de 1958. Eu tinha dezesseis anos de idade, mas já trabalhava desde os doze, com carteira de trabalho de menor, porém ganhando salário de maior. Conhecia a cidade melhor que o quintal de minha própria casa. Trabalhando como office-boy, cheguei a andar da Rua do Gasômetro, onde ficava a Codisa, firma em que trabalhava, até o Largo da Lapa. Isso porque as faturas que estava entregando ficavam muito próximas umas das outras e não compensava subir no bonde Penha-Lapa.
Eu adorava meu serviço. Tinha toda a liberdade do mundo. Podia parar em frente a uma loja de discos, como a Casa Beviláqua, por exemplo, e ficar ouvindo Nelson Gonçalves cantando “A volta do boêmio” ou Carlos Gonzaga cantando “Diana”, com som de alta fidelidade.
Saía da firma por volta das oito horas da manhã e voltava depois que terminasse minha tarefa, independente de horário. Quando o serviço não permitia que eu voltasse antes do meio dia, a firma pagava meu almoço.
Assim sendo meu interesse era de que sempre houvesse a possibilidade de ultrapassar o horário, para desfrutar de boa comida. Tanto que dependendo do dia da semana eu pré-determinava meu itinerário, visando estar próximo do restaurante que faria o prato que eu queria comer. Eu tinha a consciência de que aquelas duas horas a mais que eu trabalhava, deixando de gozar o horário do almoço, a firma me indenizava pagando os almoços.
Nos dias em que eu comia por minha conta pegava a fila do SAPS, que ficava na Rua Maria Domitila, e pagava um cruzeiro por uma boa refeição, com direito a um copo de leite e sobremesa. Havia também um SAPS num prédio meio arredondado no final da Avenida Prestes Maia e início do Vale do Anhangabaú.
Porém, o restaurante que para mim tornou-se inesquecível foi uma novidade que apareceu na Rua do Boticário, uma rua curtinha que ligava o Largo do Paissandu à Avenida Ipiranga, seu nome era Restaurante Giratório. Era um restaurante diferente dos outros. Havia duas portas, uma porta onde comprava um ingresso e entrava, e outra por onde saía. A cozinha tinha a forma oval e ficava no centro, enquanto uma mesa acoplada a uma cadeira, como se fosse uma escada rolante horizontal, movimentava-se em torno dela lentamente. O cliente sentava-se em sua mesa e a refeição ia sendo entregue a ele por algumas aberturas do tipo guichê. Nesse restaurante inusitado eu saboreei as lasanhas mais deliciosas de minha vida. Infelizmente a idéia não vingou e durou pouco tempo.
Essa é uma das muitas saudades que sinto da minha velha São Paulo.

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