Domingo no parque

Vinha apressado da Paulista rumo a minha casa. Mais uma vez estava passando por aquela avenida em frente ao Ginásio do Ibirapuera. O trânsito como sempre infernal. Mais um pouco a frente, lá esta o Monumento das Bandeiras e a minha esquerda o prédio da Assembléia Legislativa.

Farol fechado, eu dentro do carro olhando aquele monumento. Como é bonito aquele conjunto de pedra. Aquelas figuras todas, formando o monumento que mais bem representa São Paulo. Essas figuras de desbravadores, homens musculosos, expressando a grandeza e a força do trabalho. Que inspiração teve Brecheret prá fazer aquela obra digna da nossa cidade! Nunca me cansa admirá-la.

Era legal escalar aquele prédio em forma de aeronave espacial: a Oca. Mas mais emocionante que isso era subir nas cabeças dos bandeirantes do monumento do Brecheret. Sei que não é nada cívico e ordeiro dizer isso, mas como moleque que fui, tenho essa "glória" no meu currículo infantil. Parece que estávamos desafiando uma grande escalada no Himalaia. Subi naquela estátua um par de vezes. Era uma molecagem, mas acho que todo moleque paulistano que se preze fez isso.

Do outro lado está o Lago do Ibirapuera. Ah, quanta saudade desse lago, que tempos recentes recebeu uma fonte de jatos de água que fazem um espetáculo de luz e cores. Já é uma nova atração turística. Muita gente pára ali para ver o show da fonte de água. Foi uma homenagem à São Paulo pelos seus 450 anos, assim como a construção do teatro, que estava no projeto original de Niemayer e que acabou causando muita polêmica se deveria ou não ser construída.

Quando era criança, meu pai me levava ao Ibirapuera para passear. Morávamos em Pinheiros e vínhamos a pé pela Av. Brasil. Não tínhamos carro. Já havia um bom movimento na avenida, mas não o trânsito infernal que tem hoje. Passávamos por uma praça em forma de círculo com rotundas gramadas. Era a Praça Portugal. Lembro que a identificação do nome da praça era feita por um bloco de cimento em forma de quilha de tubarão. Hoje os carros acabaram com o lirismo dela. Se transformou em um cruzamento de duas avenidas movimentadas, a Brasil e a Rebouças, de trânsito intenso e com ambulantes e agora com os malabaristas de bolinhas de tênis e tochas acesas. Quem passa por ali, nem sequer lembra que aquilo foi uma praça.

Na Av Brasil, as casas que ali estão já eram as mesmas. Eram residenciais. Hoje praticamente todas se transformaram em escritórios de empresas. O curioso é que não víamos movimento nas casas. Acho que os moradores delas viajavam nos fins de semana, por isso o aspecto de abandono, quando passávamos aos domingos.

Meu avô dizia que quando chegara ao Brasil, em 1928, percorria aquela região de bicicleta. Era uma área de chácaras, onde muitos portugueses moravam. Ele conhecia praticamente todos. Depois, na década de 30, uma companhia inglesa comprou todas as chácaras e fez um loteamento de terrenos grandes e arruamento nos moldes de bairros londrinos. A região era tão arborizada que justificava o nome de Jardins. E aquela área ali virou o Jardim Europa.

Hoje ando por essas avenidas e parece que vejo meu avô passando de bicicleta por entre os carros parados nos faróis. Jamais imaginaria no que isso se transformou e com certeza se assustaria com tantos carros.

O Parque do Ibirapuera sempre foi um grande atrativo de lazer para a cidade nos fins de semana. Continua sendo até hoje. E o seu lago era talvez a atração maior. Em outros tempos havia ali botes que as pessoas alugavam para remar. Remavam em círculos pois o lago é relativamente pequeno. Muito romântico os casais de namorados passeando nos barcos. O lago não tinha esse cheiro fétido que tem hoje. Havia um tipo de pier onde as pessoas embarcavam nos botes. Havia também uma barca maior, com bancos transversais. Parecia um vagão de trem. Uma barcaça fechada de passeio. Pagava-se um bilhete e com a lotação cheia a barca partia. Dava algumas voltas naquele lago. E apreciávamos as pessoas nas margens.

Muitas famílias iam ao Ibirapuera. Passavam as tardes. Casais deitados nas gramas, crianças correndo e brincando nos escorregadores e balanças. Até hoje é assim. Quantas gerações passaram seus domingos ali. Eu mesmo perdi a conta de quantos domingos passei nele. Ou para correr, ou para jogar bola com meu filho, ou para bater papo com algum amigo, ou para ver alguma exposição.

Atualmente existem outros parques na cidade, mas com certeza nenhum com os encantos do Ibirapuera, que continua sendo a atração de muitos paulistanos nas tardes de domingo. Velhos e novos tempos!