Sexta Feira Santa

Era assim, exatamente na Sexta Feira Santa, que eu esperava com tanta ansiedade, que acontecia o melhor momento da minha vida de criança…
Minha mãe me colocava um vestido de domingo e saíamos os três, eu, meu pai e minha mãe, para visitar as igrejas do centro de São Paulo, para visitar Jesus morto. Eram sete… Tinha que ser sete igrejas! Nunca entendi porque, mas íamos a pé a todas elas.
Começávamos pela Igreja do Brás, depois rumávamos para a Igreja do Carmo. Subíamos até a Praça João Mendes onde também havia uma igreja que não lembro o nome. Íamos então pela Rua Direita, por onde chegávamos na Igreja Santo Antonio… Passávamos pelo viaduto Santa Efigênia e lá havia duas igrejas perto uma da outra. Não lembro o nome dessa também. Então íamos até a Igreja da Consolação. Era bom porque já cansados, economizávamos andar muito.
Não lembro se terminávamos na São Vito.
Em cada igreja tinha uma romaria, fila para chegar até ao altar. Cristo estava ali deitado, sendo respeitado e venerado. Era sempre um Cristo lindo e sereno. Eu ficava encantada com tudo aquilo… Ficava muito penalizada de ver Jesus ali.
Acho que já ali avivava o meu gosto por obras de arte.
Saíamos de cada igreja com a certeza de que tínhamos que ser melhores a cada dia. Chegávamos em casa exaustos, mas felizes.
Penso que hoje, longe de São Paulo, gostaria de estar lá.
Gostaria de correr de novo todo o trajeto feito em criança. Hoje eu ia reparar mais, e com outra visão, no comportamento humano.
Tenho quase a certeza que iria encontrar menos pessoas. Mas as poucas estariam lá com muita fé… E é essa fé que faz a diferença.

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