A Copa do Mundo é, foi, (será)??? Nossa…

A primeira metade do ano chegava ao fim e balões se multiplicavam no céu, rojões se ouviam por toda parte. Brasil 4 a 2, a gente era campeão do mundo. Naquela época tínhamos pouco medo de rojões e ainda se soltava balões a vontade.
Não havia cenário melhor e mais bonito que aquele. O velho e querido bairro de São João Clímaco, palco de tantas molecagens e tanto futebol nos campos da Estrada das Lágrimas, abrigava a mim e aos meus primos, que loucos de alegria, saíamos da casa deles e íamos para a casa do nosso avô, comemorar com o resto da família.
Brasil Campeão do Mundo, junho de 1958. Brasil 4 a 2. No meio do caminho um alarido maior, mais fogos, mais algazarra, pronto, acabou, acabou, agora é só festejar.
Ao chegar à casa do avô, duas surpresas. A primeira legal, pois aquele foguetório não era, ainda, o fim do jogo, era o quinto gol. Nossa, ninguém esperava mais.
A outra surpresa, um pouco chata. Meu avô, um querido e idolatrado espanhol, ainda ressentido com o olé nos 7 a 1 que o Brasil sapecou na Espanha na copa de 1950, se trancou no quarto para torcer contra. E torceu contra mesmo, assim como tinha torcido para o País de Gales, para a França e tudo o mais. Por fim, vencido pelo amor aos filhos e netos, saiu e veio comemorar (meio a contra gosto) com a gente, naquela véspera de São Pedro, com foguetes e bilhetes, a conquista da copa do mundo.
Em 1962 o cenário foi diferente. Passei toda a copa no Jardim América onde junto com os três mosqueteiros, meus inseparáveis amigos, o Chico, o Fabio e o Perereca, curtimos os seis jogos, praticamente juntos.
Perder o Pelé na segunda partida e buscar a superação. Nós quatro ficávamos grudados no radinho de pilha sofrendo até o fim. Afinal era o Brasil em campo, o nosso escrete (legal, essa palavra era muito usada na época) que fazia a gente sofrer.
Chegou o jogo com a Espanha, a Espanha, sempre ela, meu Deus, o sofrimento se fez mais forte. Perdendo de um a zero, aquele pênalti que graças a Deus o juiz não viu e o sofrimento aumentando, até que num heróico ato de desespero lancei meu brado retumbante:
Se o Brasil ganhar a copa vou a pé até a casa… do meu avô, sem pensar, tinha posto o meu avô no caminho de uma outra copa, outra vez.
E o Brasil ganhou a copa. E eu tinha que ir até a casa do meu avô em São João Clímaco.
E como bom brasileiro que sou, o que fiz? Cumpri de imediato a promessa? Não, claro que não, protelei, protelei, protelei o máximo que pude. Um dia por uma coisa, outro dia por outra, um dia porque minha mãe não aceitava, outro porque não poderia encarar meu avô, mil desculpas, todas elas sempre justas e, que raiva, pagar uma promessa pro Brasil ser campeão, na casa do meu avô, na casa dele. Era demais.
Mas um belo dia me colocaram contra a parede.
Meu avô iria se mudar para São Bernardo e pagar aquela promessa ia ser um transtorno maior. Tinha que ir, não havia escapatória e mesmo com a bronca da minha mãe e com muita má vontade, fui. Meu pai, não sei se para se assegurar que eu iria cumpri-la por inteiro ou por solidariedade ao seu filho, foi junto.
Num belo domingo, saímos, meu pai e eu, da Rua Groenlândia no Jardim América, atravessamos todo o Ibirapuera, subimos Sena Madureira, Domingos de Moraes, Santa Cruz, Vergueiro, entramos e cruzamos a Anchieta, depois na estrada de São João Clímaco, Rua São Silvestre e finalmente chegamos.
Dois pratos na mesa, pois todos já tinham almoçado e a louça já havia sido lavada, pés em pandareco pela bela manhã de domingo que passamos e para culminar o fulminante e ibérico olhar dos meus avós – ele e ela -, reprovando o que os dois moleques, meu pai e eu, fizemos.
Ns volta, passara a tempestade, mas ainda tinha mais sofrimento pela frente, pois descobri que meu pai me ajudou fazendo uma mentirinha santa, pois meu avô havia se mudado na semana anterior e eu na verdade tinha ido na casa da minha tia que passara a ocupar o imóvel.
Fiquei muito tempo matutando quanto à promessa. Paguei ou não paguei? Afinal, fui na casa que eu imaginei quando fiz a promessa (queria me safar), mas não era mais a casa dele, e vinha o outro lado da história, então não paguei, paguei sim, não paguei, paguei.
Definitivamente decidi que eu tinha realmente pago a promessa e ponto final.
Já em 1966, deu no que deu.
Depois do jogo com Portugal voltou meu inferno astral.
Teria sido a revanche do meu avô dezesseis anos depois? Será que finalmente ele teria saboreado sua tão esperada e fria vingança?
Ou seria a minha promessa? Mas afinal eu tinha o poder de mudar alguma coisa? Será que os deuses de plantão não aceitaram meus argumentos e eu estava ainda em débito com eles? Ou seria que o time do Brasil era ruim mesmo e não tinha promessa que pudesse salvar aqueles infelizes protagonistas da copa de 66?
Sei lá. Pelo sim, pelo não, acho até melhor a gente ficar quieto e deixar tudo como está.
Aliás, eu nem sei por que fui tocar nesse assunto.

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