Domingo à praia

Morávamos meus pais e eu em Sacomã quando decidimos ir à praia de Santos com uns amigos.
Devo dizer que quando vivíamos em Barcelona íamos toda semana "visitar" o Mar Mediterrâneo.
A viagem foi para mim uma grande aventura! Pois só tinha 7 anos.
Os homens prepararam o carro e as mulheres o resto da expedição.
Aqueles que eram crianças no final dos anos 1950 devem se lembrar que naquela época, poucas pessoas possuíam um veículo.
Certos adultos que eu conheci se faziam fotografar encostados num carro lindo, e conversível se possível.
Depois mandavam ou mostravam as fotos à família e aos amigos. Eu achava engraçado ver a vaidade e a tolice dos adultos.
Num domingo cedinho me despertou a minha mãe.
Levantei resmungando, tinha sono. Mas quando vi o automóvel diante da porta passou tudo!
Enquanto o senhor José, nosso amigo, revisou cuidadosamente o motor do seu artefato, o resto da malta preparou a comidinha, os jogos, os gibis, as fotonovelas, sem esquecer o rádio japonês com pilhas.
Naquela aventura era só previsto para ir 6 pessoas, mas nesse domingo, lá estávamos 12.
A Furgoneta não dava para tanto… Subiram os adultos e se assentaram em cima os pequeninos. Arrancou o veículo carregado como um burro.
Para ir mais ligeiros deixamos em casa todo o supérfluo,
Não faz mal!… O oceano estava a nossa espera.
A baixada da Rua Sousa Coutinho foi boa, a subida foi mais difícil.
Pronto, já estávamos na Via Anchieta, com intrepidez o condutor acelerou e fez rugir o motor.
Lá íamos todos a cantar: "Brigitte Bardot, Brigitte Bardot…".
Ao sair da cidade e entrar no meio do mato foi outra história. Sobretudo quando as crianças quiseram parar para fazer "xixi".
Já sabem como é, não tinham vontade todas ao mesmo tempo, daí as múltiplas paradas a beira da estrada.
O carro carregado demais sofria e penava nas curvas, tínhamos a impressão que ele ia despencar.
As mulheres se encontravam mal, tinham medo e náuseas, daí mais algumas paradas.
Depois o carro aqueceu, lá tínhamos que parar para ele se esfriar.
Os homens aborrecidos foram dar uma volta no mato, não por muito tempo, porque numa encruzilhada encontraram uma macumba.
Quatro horas depois chegamos à praia. Cansados, com calor e cheios de fome.
Descarregando o veículo é que nos demos conta de que, com o supérfluo, tínhamos deixado o almoço em casa.
Bom, vamos lá para a água! Amigos, devo dizer-lhes que o Atlântico não é nada como o Mediterrâneo, que é quentinho e tranqüilo… Água Fria e fome não são bons amigos!
Pronto, já íamos de volta para casa, mas as canções não eram as mesmas: "Tristeza não tem fim, felicidade sim…".
Em sete anos que vivi em São Paulo, esta foi a única vez que fui à praia.

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