Cassino

Já tive oportunidade de referir-me aqui a um irmão de meu pai que teve um Buick preto, o top do chique, e que levou a moçada para participar do Corso, em um inesquecível Carnaval. Este meu tio, que era o mais letrado dentre os familiares, pois tinha curso primário completo e um curso técnico, foi dono de uma marmoraria na Rua da Alegria, quase em frente à fábrica de cigarros Castelões, se não me falha a memória. Vagamente me lembro que havia também a Cadeia Pública, não sei se na Rua da Alegria ou nas proximidades.
Meu tio tinha muito trabalho, principalmente na edificação de túmulos nos cemitérios mais proeminentes da cidade: Consolação e Araçá. Eu gostava muito de andar por estes cemitérios porque de fato, estes trabalhos de marmoraria e fundição eram muito lindos. Minha mãe tinha um irmão, em Ribeirão Preto, que possuía uma fundição e também realizava trabalhos para cemitérios. Eram túmulos muito imponentes em mármore ou granito, com anjos e outras figuras religiosas em bronze e até esculpidas no próprio mármore, que deram oportunidade a grandes artistas de realizarem muitas de suas obras. Hoje, até excursão turística para os cemitérios existe. Esses túmulos atestando uma outra forma de encarar a morte, isto é, imitando a divisão da própria sociedade em ricos e pobres, defuntos de primeira e de segunda qualidade.
Apenas a título de registro, no Cemitério da Saudade, em Ribeirão Preto, todos os túmulos antigos, cujos herdeiros ou familiares não mais existem ou os abandonaram, têm suas estátuas e esculturas retiradas e colocadas, em ambos os lados da alameda de entrada em pedestais e a plaqueta de bronze com os nomes da família afixados no pedestal. Achei a idéia genial em todos os sentidos.
Meu tio tornou-se um homem rico, mas não soube lidar com o dinheiro, pois tornou-se boêmio e perdulário, com uma penca de amigos que sempre estavam a seu lado para usufruir de seu dinheiro, deixando de lado sua esposa e cinco filhas. Era um homem bonito e para aquela época pode-se dizer que era um metrossexual. Sempre se barbeava, cortava cabelos e fazia manicure em bons e caros salões. Vestia-se com os melhores alfaiates, passou a ter várias amantes e com elas freqüentar boates e cassinos de luxo.
Era assíduo do Cassino Vila Sofia e lá arrematava em leilões casacos de peles e jóias para sua amante do momento. Gastava muito em comes e bebes com toda a sua enturrage. Por ouvir tantas histórias na família sobre o meu tio e tantas coisas (falsas ou verdadeiras, não sei) sobre o Cassino Vila Sofia, esta casa, na minha mente infantil a casa do prazer e do pecado, permanece muita viva em minhas lembranças.
Meu tio, infelizmente pagou caro por suas extravagâncias. Perdeu tudo o que tinha e morreu na mais absoluta miséria, mas acompanhado, até o fim, por sua mulher e filhas. Tenho tristeza por estes acontecimentos, embora eu fosse muito criança na época, guardo saudade do meu tio, que era muito bom para todos nós.

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