Eu contava treze anos e ansiava assistir ao jogo de futebol no campeonato da escola onde fiz meus estudos até a adolescência, o saudoso LASP – Liceu Acadêmico São Paulo, situado, então, no bairro do Pari(Rua Oriente). Adolescente, hormônios à flor da pele, "caída de amores" pela primeira vez. O então dono do meu coração era não um, mas "o" mais solicitado pelas garotas graciosas e mais bem aquinhoadas pela natureza: corpos bem delineados, beirando os dezoito anos e, portanto, mais amadurecidas, enquanto que eu – tadinha! – muito sem graçona, não passava de uma tábua com o rosto cheio de pregos, ou melhor, espinhas.
Bastante parecido com o Paul Newman, uns cinco anos mais velho que eu (sentiram as minhas chances, né?), meu deus grego era centro-avante do time. Arrumei-me toda, passei batom, pintei os olhos (escondidinho da mamãe), arrisquei um sapato de saltinho e lá fui sentar-me no beiral do muro (1,40 m de altura, mais ou menos) que margeava a quadra. Já estávamos na metade do jogo e eu, em meio à torcida bastante empolgada, gritava o nome do meu Adonis, que ia cobrar um pênalti. De repente, o chute. Tive apenas tempo de ver aquela bola viajando, viajando, viajando e… tóin! Tudo à minha volta escureceu. Lembro-me bem de que as vozes sumiam enquanto minha cabeça latejava terrivelmente e eu mergulhava num poço sem fundo. Não sei quanto tempo permaneci naquela escuridão, mas quando dei por mim, estava acordando cercada de pessoas. Abri os olhos lentamente.
Morri e estou sendo velada! – pensei. Rostos e mais rostos, com várias formas e bocas tortas se debruçavam sobre mim.
– Olhem! É a filha do Professor! – alguém disse.
– Xiii! Tá todo mundo ferrado. Bomba certa em matemática! – bradou um outro.
Desnorteada, fixei-me em quem me olhava de frente, olhos azuis encantadores. Meu ídolo, ajoelhado, massageava-me os pulsos com álcool.
Um anjo? Mas, cadê as asas? – indaguei. E à medida em que tudo tomava forma, tudo também fazia sentido: aquele que me fitava preocupado não era um anjo coisa nenhuma, e sim, o "meu" príncipe encantado!
Por pouco não desmaiei de novo. Só não conseguia entender ainda o porquê de tantas pessoas ao meu redor e qual o motivo que o fazia se desculpar tanto! Até que alguém perguntou se eu me lembrava de alguma coisa. Pensei um pouco e, num sobressalto, lembrei: a bola! A booola! Aquela maldita esfera de couro duro e cheia de ar me derrubou. Pior: nocauteou! Fiquei arrasada, afinal, que mico eu tinha pago!
Mas, peraí! Pe-ra-íííí! Paul Newman ia cobrar um pênalti, errou o alvo e chutou com toda força. Bem na trave: o lado direito do meu rosto. E, como se não bastassem a terrível dor de cabeça e a sensação de que eu era um pião girando sem parar, uma dor ainda mais aguda me tomou por inteiro: a dor da alma! Com o coração em pedaços (e o cérebro também, pensei) vi meu "herói" abraçar uma garota e se perder no meio de todas as cabeças que, então, já seguiam seus caminhos. Mais tarde, em observação no hospital, não parava de me perguntar: "Mas, o que é que eu fui fazer lá?".
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