Prédios e baobás

Quando somos crianças nosso universo é igual ao daquele pequenino personagem que habitava um pequeno asteróide. Para nós tudo é gigante, mas na realidade, vivíamos num pequeno asteróide.
De minha parte, meu universo ao norte terminava na Freguesia do Ó, na Avenida Itaberaba; ao leste, na colina da Igreja da Penha; a oeste conhecia o Largo de Pinheiros, ou no máximo a estrada da Boiada e ao sul, ouvia falar de um longínquo Santo Amaro.
Mas a cidade cresce. Tal como avassalador exército, leva de roldão tudo o que vê pela frente, desbravando matas, escalando montanhas, cruzando rios, fincando seus estandartes e expandindo limites. Nada interrompe essa inexorável e contínua marcha. O minúsculo vira pequeno, este por sua vez torna-se normal, o normal vira grande, o grande, super, hiper, mega, giga e outros adjetivos mais. Encurtam-se as distâncias, os dias ficam menores para tanta atividade, o progresso se faz presente e o pequenino asteróide fica indiscutivelmente maior. Onde era várzea surge um shopping, no lugar do terreno baldio, surgem prédios, casas são derrubadas, surgem avenidas.
Mas, como todo exército que avança, este também deixa para trás seus escombros e suas mazelas, seus mortos e seus feridos.
Eu subia a Frei Caneca em direção à Paulista. Num determinado momento me veio à mente um pequeno príncipe, um minúsculo asteróide e um imenso baobá.
Olhei para aquele prédio e me perguntei desconsolado. Ah, minha velha e querida Maternidade São Paulo, por que tantas janelas fechadas? Onde estão os táxis entrando e saindo, as pessoas ansiosas chegando e as radiantes voltando para suas casas e ao seu mundo novo? Onde andarão os homens sábios que traziam vidas e os jovens residentes com seus sorrisos? Por que não há mais o esvoaçar das cortinas nas janelas escancaradas? E as camisas de futebol penduradas nas portas, e as bonecas, e os enfeites? Como andará aquela capela, palco de solenes e silenciosas promessas ou de emocionados agradecimentos; quem contará aquela piada na hora imprópria ou terá aquela palavra consoladora na hora mais precisa? E aquela lanchonete, ainda teria aquele café feito na hora, em qualquer hora, a toda hora?
E quem avisará este mísero escrevedor que não adianta ficar espiando na fresta da porta e que a lanchonete é o lugar mais apropriado para aqueles como eu, que não podiam fazer nada naquela hora a não ser esperar, esperar e esperar? E quem vai me abraçar quando a luzinha azul do quarto 5 acender? E quem, alguns anos depois, vai notar que chorei aliviado quando brilhou a luz rosa do quarto 4? E os seus corredores silenciosos, e o interminável berreiro? Onde andam as enfermeiras que sabiam tudo? Quem vai me fazer comprar um ovo de páscoa do tamanho do mundo? Quem vai abrir aquelas janelas, quem vai se emocionar outra vez quando ouvir o choro mais esperado se ouvir outra vez? Quem vai escolher nomes, de jogadores, de artistas, do pai, da mãe, quem vai sorrir no sim, quem vai chorar no não. Quem sairá cuidadoso carregando o bebê esperado, quem sairá despedaçado quando o infortúnio for verdade?
Ah, minha velha e querida Maternidade São Paulo. Existem homens sérios resolvendo problemas e cuidando de números; existem aqueles que acendem as luzes e aqueles que as apagam; os que cuidam de rosas e aqueles que nelas pisam.
O exército avança á frente. O conquistador celebra seu feito, recebe seu prêmio, mas ninguém se importa com quem ficou para trás. A cidade cresce, progride, mas poucos choram o que no caminho, no tempo e no espaço se perdeu.
Ah, minha velha e querida Maternidade São Paulo…
Eu olhei para aquele prédio e me percebi desconsolado.
Segui adiante. Cheguei na Paulista, virei, e me fiz as derradeiras perguntas.
Por que hoje é fevereiro, quando poderia ser julho; por que é verão quando poderia ser inverno? Por que não conseguimos cativar tudo que nos é caro e por que não podemos ser responsáveis por tudo que cativamos; por que hoje é verão, quando poderia ser inverno?
Quem sabe se num passe de mágica, e como o personagem daquela marcante história, eu, muito, muito pouco príncipe, mas muito, muito pequeno, pudesse imaginar o impensável, e se fosse julho e não fevereiro, talvez aquele prédio imenso, imponente, hoje incrivelmente inerte, parado, morto para aquilo que nasceu fosse apenas e tão somente como um baobá velho e adormecido.
Adormecido, como adormecem todas as árvores nos meses de inverno…

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