Depois que meus pais se separaram em 1953, íamos almoçar aos domingos na casa de minha tia Chafica, irmã de minha mãe, na Avenida Aratans, no bairro do Aeroporto. Depois de descermos na Praça do Correio, caminhávamos até a Galeria Prestes Maia, e pegávamos o ônibus Aeroporto. Temos fotos da época, minha mãe muito elegante, meu irmão de terno de calças curtas, minha irmã e eu igualmente vestidas, portando bolsas a tira-colo, além de uma bexiga amarrada numa vareta de bambu de aproximadamente 50cm, que, acredito, tinha sido comprada ali mesmo. Já no ônibus, passávamos em frente ao Teatro de Alumínio, na Praça das Bandeiras, uma vez que o ônibus seguia pela Avenida Nove de Julho e no túnel arregalávamos mais os olhos e olhávamos para nossas mãos porque as luzes já eram alaranjadas, víamos a propaganda do basculante da Trivelatto, dobrava a Avenida Brasil, e olhávamos embevecidas aqueles lindos casarões. Encantava-me especialmente um que fazia esquina com a Brigadeiro Luiz Antonio, hoje Banco Real. Minha irmã gostava da mansão ao lado. Na República do Líbano, as casas eram menores, mas sentíamos um úmido frescor proveniente do parque Ibirapuera. Quando chegávamos à boite Bambu já nos levantávamos, porque estávamos próximos ao nosso destino. Saltávamos em frente à Cruz Vermelha e víamos muitas crianças na sacada, esperando seus familiares. Minha mãe nos dizia que era dia de visitas e que as crianças estavam em tratamento. Sentíamo-nos felizes e seguros por termos nossa mãe sempre ao nosso lado. Estávamos amparados. Para completar nossa felicidade chegava o Zorro, o cachorro de minha tia, que vinha nos encontrar saltitante e fazendo festa. A subida da Aratans era difícil, pois muitas vezes, após um calor escaldante, éramos surpreendidos pela chuva e nossa elegância terminava no maior atoleiro. Apesar de a pé, derrapávamos. A casa de minha tia era muito alegre e ostentava orgulhosamente uma placa de metal em comemoração ao IV Centenário, e o tio José tinha um carro de aluguel e fazia ponto no Aeroporto de Congonhas. Após o almoço, algumas vezes, íamos à matinê do Cine Jurucê. Na volta, exaustos, adormecíamos e éramos despertados ternamente por minha mãe, para caminharmos até a Praça do Correio, tomarmos outro ônibus e voltarmos para casa. Apesar do o percurso durar várias horas, esperávamos ansiosos pelo próximo domingo.
e-mail da autora: [email protected]