Memórias românticas

Mais tranqüilo, dou asas à memória e novas recordações afloram. Nada mais faço se não registrá-las para a posteridade e para, através deste site, contá-las aos meus leitores.
Meados dos anos 60, eu era como já afirmei em outras memórias, freqüentador permanente de um salão de bailes na região da Cidade Ademar, o saudoso e querido Recreio das Carpas, e todos os sábados, tal qual um imperador, marcava presença e cuidava dos meus “domínios” e, lógico, das minhas parceiras.
Aos domingos, a minha presença naquele ambiente dançante não era constante em virtude da pequena freqüência de damas interessadas em buscar aventuras dançantes. Mesmo assim, vez ou outra, por lá aparecia, devidamente acompanhado por outros Duques de Piu-Piu, no mínimo, para confirmar a ausência de parceiras e, assim, lamentar a preferência dominical do público pelo Cassino Vila Sofia, digno vizinho, que aos domingos fervia com tantos pares bailando em sua pista dançante.
Numa dessas visitas de “resistência”, enquanto desolado tomava meu copo de cerveja e conversava com os músicos da orquestra (Orquestra Dançante de Joaquim Barrios) vi surgir no alto das escadas que permitiam ao freqüentador, depois de liberado na portaria adentrar ao salão, duas damas muito bem vestidas.
Percebi que elas, mesmo um tanto admiradas com a ausência de público (deviam estar presentes no máximo uns 20 casais), tomaram assento em uma mesa do lado oposto à minha mesa cativa.
O fato assanhou não só aos Duques como também ao Paulinho Polícia, nosso amigo e excelente bailarino, que com um gesto de alivio preparou-se para tentar a sorte naquela fortuita “seara” que ali se apresentava.
Eu mais ladino e menos espalhafatoso, fiz um gesto para o Joaquim Barrios que me entendeu de imediato e preparou-se para iniciar uma seleção de boleros no intuito de me permitir dançar com uma das novatas ali presentes e constatar se alguma delas sabia ou não dançar.
Dei sorte, a dama que me antecipando ao Paulinho, convidei a dançar, era exímia bailarina. Como se dizia na época, aluguei-a por toda a noite. Seu nome, Ana, residência, Santo Amaro, descendência, russa, local de trabalho, Laboratório Lily (já falei sobre em outro texto), na Avenida Morumbi.
Lembrei-me, então, que no curso da semana anterior havia ganhado do senhor Pedro Ferronato, Gerente da Cia. e Imp. Restinga, onde eu trabalhava, dois convites para a “Avant Premier” do filme “French Can-Can”, na inauguração de uma sala cinematográfica na Avenida Rio Branco, cujo nome esta velha memória teima em manter esquecido. O evento se daria no dia seguinte, segunda-feira.
Convidei-a para esse evento e o convite foi aceito de imediato. Marcamos então, um encontro para as 20 horas da segunda-feira, na frente da Galeria Prestes Maia, em baixo do velho relógio (sei que como cavalheiro eu deveria buscá-la em casa, mas confesso que, na minha situação de “galã”, essa possibilidade nem me passou pela cabeça).
Enfim, hora chegando eu me dirigia para o local do encontro e preocupado, tentava me lembrar da fisionomia da convidada que, na noite anterior, havia sido minha parceira de danças das 21 às 2 horas da madrugada. Lembrava que era morena, cabelos negros como azeviche e… mais nada!
Mesmo assim, contando com a sorte e um fio de memória, me postei no lugar marcado e iniciei a verificação de cada um dos passageiros que desciam dos ônibus vindos de Santo Amaro.
Já estava de desiludindo da chagada de minha convidada quando um táxi negro parou à minha frente, a janela do banco traseiro se abriu e uma voz maviosa chamou meu nome.
Sem demonstrar as dúvidas e incertezas que até então me preocupavam, fui em direção ao táxi, me lembro que no trajeto ainda fiz a conta do dinheiro em meu bolso para me certificar que tinha quantia suficiente para suportar aquele dispêndio. Tinha, então entrei no táxi assustado pela constatação da beleza e da classe da dama que tinha vindo ao meu encontro.
Foi um caso verdadeiro de amor à primeira vista e, se não fosse meu egoísmo e egocentrismo, nosso romance não teria durado apenas 6 anos. Acredito que estaríamos juntos até hoje.
Eita memória gostosa!

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