Apelidos e alcunhas

Numa comunidade em que quase todos se conhecem, as identificações por meio de apelidos, tornam mais fácil localizar pessoas do que pelo próprio nome ou sobrenome. A comunidade de polinhaneses, oriundos de Polignano à Mare, província de Bari, sul da Itália (calcanhar da “bota”), localizada no Brás, limitada a norte e leste pela Estrada de Ferro Santos/Jundiaí e a oeste e sul pela Rangel Pestana e Parque D. Pedro II, recorria a este expediente com uma freqüência inusitada, chegando mesmo a ser utilizada nas escolas pelas crianças como se a alcunha fizesse parte do seu nome. Isso até meados dos anos 60 quando seus membros foram morrendo e o costume desaparecendo, em virtude de uniões de bareses ou descendentes com pessoas de outras origens que, ao saberem dos significados dos apelidos, chegavam a brigar com quem os pronunciava. Nos anos de 1920 a 1950, quando os membros dessa comunidade atingiram idades adultas (a grande leva de imigrantes começou no final do século XIX), a mais corriqueira das citações, quando se queria mencionar algum dos patrícios, recorria-se a esse expediente, a maneira mais fácil e rápida na identificação.
Vou tentar descrever alguns apelidos, conforme sua pronúncia no dialeto e não pela gramática.
Minha família tinha o apelido de “Perqueuse”, pelo rosto cheio de pintas, “banana pintada”, como se dizia antigamente. “Pezza'n gueug” (remendo na bunda), “Mira' n baccia” (mancha cor de vinho no lado inteiro do rosto), “Costa a costa” (andava bem junto a parede, com a cabeça inclinada, quase batendo nos relevos), “Zambenela” (pernilongo), “Sgota latroine” (esgoto e latrina), “Patre nustre” (pai nosso), “Sactele” (saquinho), “Farfele” (borboleta), “Tzabeline du pagazze” (Izabel do palácio), “Tasctoini” (sem tradução), “Martinelli” (alto demais), “Trofle-trofle” (apressadinho), “Facci'n nheure” (cara preta), “Ace di'spete” (aço da espada), “Guipeuni” (tremoços), “Pizziquela” (beliscão), ”Imbaixatoure” (embaixador), “Changolome” (sem tradução), “Murti suoni” (morto de sono), “Batiste u ruce” (Batista, o russo), “Riquetela” (orelhinha), “Xiqui'nnhac” (ruído onomatopéico do mastigar), “Arritela” (chegando devagarinho), “Xaquá” (lavar), “Ana fagalauni” (Ana fala demais), “Grositela” (mexe com resíduo de madeira), e por aí a fora. Isso tudo no bairro do Brás, último reduto de uma população que muito fez e faz pelo engrandecimento e prosperidade de nossa querida cidade de São Paulo.
Quando perguntava a meus pais a origem dos apelidos, eles diziam que os bareses já vinham da Itália alcunhados, pois não raro o apelido vinha dos antepassados dos catecúmenos que herdavam sem saber o significado e o porquê de sua família ser contemplada com a alcunha.
Pois bem, minha família não escapou desse “RG adriático”. Não sei se por simpatia, por ironia ou por maldade mesmo, os apelidos nem sempre eram bem aceitos pelos contemplados, mas isso não impedia que ele se propagasse imediatamente, por causa das facilidades de se localizar ou identificar quem quer que seja da comunidade. Até nos folguedos de rua, quando a brincadeira se tornava mais ríspida, um garoto xingava outro e o outro reagia, citando o apelido da família, que ouvira em casa seus pais citarem com escárnio.
De acordo com seu trabalho, sua atividade profissional, sua postura física ou moral, seus gostos, qualquer coisa valia para “batizar” alguém. Quem o fazia? “I chi lo sá?” (e quem sabe?).
Nos anos 30, 40 e 50, mesmo durante a guerra, a colônia polinhanesa fervilhava de alegria e trabalho, muito trabalho. Todos os anos e até hoje, os que ainda vivem e seus descendentes mantém as tradições em torno da igreja de São Vito, com procissões e quermesses, esta, hoje, fazendo parte do calendário turístico de São Paulo.
Uma prova deste fervor religioso é o próprio edifício, na antiga Rua Álvares de Azevedo, hoje Rua Polignano á Mare, que abriga, além da igreja, mais 4 andares onde é utilizado para várias finalidades. Esse prédio tem uma interessante história de uma atitude altaneira de um vigário alemão, padre João Beil, já falecido. Quando o Brasil entrou na guerra, em 1941 ou 42 (que me corrija o Rocha ou o Lopomo, se estiver errado), o padre João cuidava de uma pequena paróquia em Ubatuba, no litoral paulista que, na época, pra se chegar vocês podem imaginar… Padre João, um homem robusto, alto, chegava a quase 2 metros de altura, forte como um touro, era uma pessoa obstinada e de uma convicção para realizar qualquer projeto, sem medir nenhum sacrifício. Vocês podem imaginar, dentro de uma colônia fechada (na época…), ter que aceitar um padre que não fosse italiano ou brasileiro, cerceado pelas exigências absurdas das autoridades, proibindo qualquer diálogo, em público, nos idiomas alemão, japonês e italiano, um padre que foi proibido de pastorear numa comunidade no litoral, onde, além de suas atividades religiosas, tinha uma escolinha para os caiçaras, onde cuidava da população bem pobre da região e mal falava o português, foi remanejado contra sua vontade pra outra paróquia longe do litoral. As autoridades tinham receio de que ele pudesse enviar sinais pra algum submarino alemão.
Fui coroinha do padre João durante quase toda sua permanência entre nós. Logo após sua chegada no Brás, reuniu-se com os próceres da Associação Beneficente São Vito Mártir e mandou um recado rápido e rasteiro: vamos derrubar a capelinha e construir uma igreja maior, com escolas, recreações, atividades literárias e esportivas. Sabia o que estava falando, o comércio cerealista da Rua Santa Rosa quase na sua totalidade, nas mãos dos polinhaneses, daria respaldo a um evento grandioso e custoso desse tipo. A colônia toda comentava em todos os cantos do bairro: “Ma esse alemão pensa que nós somos o que? Isso não é nada mais nada menos do que uma segunda invasão alemã na Itália. Nós construímos essa capela em fins do século XIX, pelos primeiros imigrantes que aqui chegaram, alguns ainda vivos, não podemos aceitar essa intromissão em algo que nos é sagrado. Quem ele pensa que é, esse devorador de chucrute e salsicha? Ninguém vai derrubar nossa capela.”
As manifestações eram mais ou menos nesse sentido, com reações xenófobas, nada estranhas se atentarmos para uma população que, já na Itália sofria os preconceitos do resto do país, pois eram considerados inferiores, “baixa Itália”, como eram alcunhados. Padre João não se deu por vencido. Reuniu os mais “letrados”, pouco alfabetizados, e fez ver a eles as vantagens da iniciativa e logo em seguida começou a demolição. Levantou o prédio e antes de terminá-lo, acabando a guerra, ficou mais um pouco e logo voltou pro seu projeto principal que era o município do Ubatuba, onde ficou até morrer.

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