Nos anos 60 eu morava bem ao lado do Tênis Clube Paulista, na Aclimação. Meu pai, porém, não tinha condições financeiras para me colocar como sócia do clube, e isto foi a maior tristeza da minha infância.
Minha melhor amiga, a Beti, morava dentro do Tênis, filha do zelador Marino, e até para ir brincar com ela eu precisava driblar o porteiro, entrar de costas ou mentir deslavadamente que havia perdido a carteirinha. Nos fins de semana todas as crianças das ruas estavam na piscina, todas menos uma, eu, que ficava olhando da amurada e ouvindo as risadas e gritos de alegria vindo lá de baixo, da água tão azul que me chamava.
Minha alegria era o parquinho, ao lado das quadras de tênis, onde inventávamos estórias de Zorro nas gangorras e onde me apaixonei pela primeira vez, pelo bonitão Esmar que aos doze anos jogava tênis todos os dias. Nunca vou me esquecer também de quando por acidente bati com a minha balança na boca de uma criança de três anos, a Maria José, e ela teve que ser levada ao hospital. Sei que ela se recuperou bem, mas aquilo me marcou muito.
No carnaval vestíamos um velho shorts de educação física e voltas e mais voltas de colares de macarrão pintados com esmalte. O porteiro só me deixava entrar no meio do baile, acho que de pena, mas uma vez só me deixou passar no finalzinho mesmo, só deu para pular uns três minutos! A gente gostava mesmo era de jogar serpentina pra cima e confete pra todos os lados, e dar uma olhadinha se os nossos ‘namorados’ estavam lá!
No Natal uma vez ganhei um carrinho de boneca na rifa do Tênis. Que alegria! A festa de Natal de lá era bonita e muito colorida, a criançada toda se ajuntava no ginásio de esportes pra ver os palhaços e o Papai Noel.
Aos sábados íamos ao cinema do Tênis Clube. Passada a dificuldade de enganar o porteiro, era só diversão, sentada ao lado das outras meninas, todas de roupa nova, prestando atenção metade no filme e metade na fileira dos meninos logo atrás jogando papelzinho na gente. Os filmes eram geralmente em branco e preto, comédias românticas. Como quase ninguém tinha televisão em casa, aquilo era muito especial.
Nós sempre encontrávamos um jeito de furar festas no Tênis e lembro uma vez que o garçom passou com um prato de empadinhas, mas foi atacado por um bando de meninas. As empadinhas vieram caindo sobre nós, não sobrou uma na bandeja.
No ano passado fui visitar o Tênis, não precisei nem correr do porteiro. Tudo ainda parece o mesmo, mas ao chegar onde era a casa do zelador e da minha amiguinha lá no fundo ao lado dos vestiários, tudo havia sido demolido.
Confesso que chorei.
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