A garoa paulistana

Anoitece! As lâmpadas amarelas e fracas tornam-se mais fracas, ainda na garoa os operários trajados com seus ternos azuis e suas inseparáveis pastas onde levam as marmitas, voltam às suas casas em bairros operários como o Brás, a Mooca e a Lapa, todos eles rodeados por milhares de fábricas que compunham o cenário de pujança da efervescente capital paulista no ano de 1954.
Alguns deles ainda tinham o ânimo de parar no bar e tomar aquela que "matou o guarda" e até se arriscavam a uma partidinha de bilhar!
E a noite ia avançando fria e garoenta, os bondes passavam rangendo suas rodas de ferro nos trilhos, os mendigos procuravam abrigos nas marquises afim de passar a noite a salvo da umidade da garoa paulistana.
Nas casas, as esposas preparavam os jantares com sabores diversos de muitas outras nacionalidades, uma vez que esta cidade era berço de imigração de muitos povos! E os odores? Sentia-se o cheiro do minestrone, do caldo verde, da miga com sardinhas, de cada casa vinha um cheiro e que cheiro bom! Dava água na boca dos transeuntes!
Meu avô, aposentado pelas Indústrias Matarazzo arrumou um bico em uma fábrica onde era vigia noturno, passava a noite inteira a rondar os muros externos da tal fábrica e sabe onde terminava o muro desta fábrica? Onde hoje está a Avenida Marquês de São Vicente ali ficava também o campo do Lapeaninho Futebol Clube, no local do prédio da Polícia Federal era a várzea do Tiete, onde peguei muitos guarus com peneira, o prédio da multinacional Siemens na Lapa de Baixo era ocupado por um imenso lixão desativado na época onde a garotada ia brincar e às vezes colher abóboras enormes que levavam para casa!
Lembro também das porteiras da Lapa, as da Sorocabana ainda eram com rodas de ferro, que eram abertas e fechadas a cada trem que se aproximava, a da Santos, a Jundiaí já eram mais modernas e abriam automaticamente com sinal vermelho piscante!
E assim narrei um pedacinho da minha infância na São Paulo da garoa!

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