São Paulo de meio século passado. Cidade de coração fabril, indústrias por todo lado, até em bairros tipicamente residenciais: Vila Mariana, Indianópolis, Bela Vista… Eu, então moleque de uns 10 anos de idade, fascino-me pelos ônibus e bondes. Quando esporadicamente saio de meu bairro, o que mais procuro observar, além da paisagem urbana, são os ônibus e os bondes típicos de cada região. Ao lado da CMTC, os ônibus das operadoras então chamadas de "empresas particulares" praticamente monopolizam o transporte na região em que atuam e têm cores distintas: verde, como os da Alto do Pari que, partindo da Praça Clóvis, destinam-se à Vila Maria, Pari, Canindé e adjacências; são ônibus ingleses, Leyland. Amarelo, caso da Alto da Mooca que, também saindo da Clóvis, próximo ao Corpo de Bombeiros, vão para Vila Bertioga, Vila Oratório, Parque da Mooca, Alto do Belém… Igualmente, são os mesmos Leyland. Próximo desses referidos, num cantinho da Praça, perto da Igreja do Carmo, outros Leyland: verde e amarelo, também Leyland, são os da Guarulhos. Na mesma grande Clóvis Bevilácqua, muitas outras linhas, como por exemplo os azuis da Vila Esperança. Estes já eram Volvo suecos, encarroçados pela Carbrasa, do Rio de Janeiro, que fazia questão de deixar bem claro: "CarroSSarias Brasileiras S.A.". Nessa São Paulo de minha infância, os ônibus urbanos são quase todos Caio ou Grassi. Ambas paulistanas, tradicionalíssimas. Grassi não existe mais. A Caio, hoje em Botucatu, situava-se na Rua Guaiaúna, cuja imponente edificação resta ainda de pé, com a inscrição "CAIO". Transporte coletivo sempre foi marcante no desenvolvimento da Paulicéia, principalmente dos anos 20 em diante. Quando os primeiros ônibus começam timidamente a disputar espaço com os bondes da então "Light". Por muitos anos, os bairros foram pólos de irradiação de linhas para os "arrabaldes", mais distantes. Por exemplo, o "Largo da Vila Prudente", por onde passavam os ônibus azuis da C.T.P. (para São Caetano, Vila Zelina, Vila Alpina) e os amarelinho-vivo da Empresa Vila Paulina (Vila Ema, Vila Santa Clara); a Lapa, proximidades do Mercado, de onde partiam os coletivos para outro lado do Tietê (Freguesia, Itaberaba) ou para os lados tanto de Pinheiros e Jaguaré, como de Pirituba; a Penha, onde havia um arremedo de "estação rodoviária": ficava lá no alto, perto da Fundição Foz, lugar que na verdade era uma reentrância onde paravam algumas linhas de ônibus que se destinavam a bairros contíguos: Vila Esperança, São Miguel etc. Aliás, na Penha rodava uma das mais tradicionais "empresas particulares": Penha-São Miguel. Até 1957, mais ou menos, há uma variedade de ônibus importados de modo que – para quem gostava, como eu – era fácil guardar "caras" e ruídos de motores, característicos de cada marca e procedência. A partir daí, a Mercedes-Benz vai gradativamente dominando o mercado de ônibus urbanos brasileiros, como facilmente se pôde observar. Paulistanos contemporâneos de minha idade ainda se recordarão que, 50 anos atrás, antes do advento das catracas ("borboletas"), o cobrador de ônibus andava pelo salão cobrando as passagens, muitas vezes por trechos da viagem (seções), com bilhetes de papel de várias cores. Tal qual nas viagens ferroviárias, no percurso ocorria de subir o fiscal para picotar o referido bilhete. Lembro-me mais, ainda, de alguns carros tão antigos que as portas sequer eram acionadas por controle pneumático: eram-no manualmente, pelo motorista, através de uma alavanca (porta dianteira) e pelo cobrador, por meio de um ferrolho (tranca), para fechar a porta traseira… Fica, pois, este pequeno registro de uma face do transporte coletivo paulistano.
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