Primeira vez em São Paulo

Aos quinze anos, sem saber como, fui convocada para acompanhar uma senhora, amiga da família, em uma viagem para São Paulo.
A ansiedade era tanta que eu nem perguntei o porquê.
Lembro que ficamos em uma casa no Alto da Lapa, onde uma mocinha me recebeu muito bem, aproveitou para se exibir diante de um grande espelho no quarto, imitando cantoras e fazendo caras e trejeitos (achei lindo e ali tive quase certeza que ela seria uma artista famosa, pois tinha a vantagem de morar na Capital que era nessa época para mim o máximo em oportunidades). Talvez para recompensar meu aplauso, levou-me ao cinema onde estava sendo exibido o filme “Ama-me com Ternura”, com Elvis Presley, seu primeiro filme.
Calculem minha emoção… Primeira vez em São Paulo e indo ver a sensação do momento! Não dormi a noite inteira, pensando em Elvis e estranhando os ruídos da cidade grande.
No dia seguinte, ainda como acompanhante, fui de bonde e ônibus para um cemitério, se bem me recordo, em Indianópolis, ou em algum lugar perto. Assisti também pela primeira vez uma exumação de uma parenta dessa senhora em que, no meio do lamaçal, a ossada muito suja de terra foi colocada em uma caixa de papelão do sabão em barras “Campeiro”.
Enquanto esperávamos a hora de partir, lanchamos na casa de uma senhora que nos serviu (ai que delicia!) duas coisas que eu nunca tinha visto: leite em pó e bolo Pullman, cortado em fatias, que achei finas demais, comparadas ao tamanho de minha fome.
Voltamos para minha cidade de trem com a dita caixa embaixo do banco, sem maior preocupação, para ser sepultada junto aos falecidos da família.
Fico imaginando essa aventura nos dias atuais… Não seria possível pelos entraves da burocracia, desnecessária nesse caso familiar e não traria respeito ao morto, que havia expressado o desejo de descansar em sua cidade natal.
Ah… Nunca soube se a tal mocinha se tornou artista ou não.

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