Lendo um comentário de nosso distinto colega e consagrado colaborador deste site, Mário Lopomo, ao contar sua passagem pela Escola Senai C-1 Braz, lembrei-me de quando fiz um curso de 2 anos, no Senai C-3 Moóca, em 1947, 48, num segmento de calçados, corte, pesponto e tecnologia sobre tudo o que se relaciona com calçados, com um verdadeiro mestre no assunto, professor Mazzei. Depois de 60 anos, ainda lembro de professores, mestres, diretores, dentistas etc.
Pra ir à escola, que ficava na Rua da Moóca, entrada provisória e que, passados alguns anos, se tornou os fundos da escola, pois a entrada foi para a Rua do Oratório, que deveria ser a principal. Eu tomava o bonde Moóca-7 ou o Moóca-9. O primeiro ia pela Rangel Pestana, Celso Garcia e Rua Bresser, até a Moóca. O segundo, 9, ia pela Rangel Pestana, Rua Piratininga e Rua da Moóca. E era dos pequenos, quatro rodas.
Com 15 anos ainda era um devorador de “Gibis”, e durante as refeições em casa, na mesa, sempre tinha de 7 a 10 pessoas, meus pais, irmãos e irmãs, então eu sempre dava um jeito de ir pra outra mesa, punha um apoio de frente pra mim, onde encostava um gibi, e só comia se tivesse algum pra ler, e não lia nada se não tivesse alguma coisa pra comer. As broncas do meu pai e dos meus irmãos de nada adiantavam. Meu irmão mais velho, Vito, já falecido, foi quem me encaminhou praticamente por essa vereda (até hoje gosto de ler por causa dele…), ele era também um devorador de policiais, tinha toda a Coleção Amarela, da antiga Editora Globo, de Porto Alegre e quase tudo o que Edgar Walace escreveu, seu escritor favorito.
Um dia, de manhã, como fazia sempre, morando na Rua Alfândega, fui tomar o bonde na Rangel. Os pontos de bondes eram protegidos por duas ilhas de mais ou menos 15 metros de extensão por metro e meio de largura, uma em frente à outra, para os que iam pro centro e para os que iam para os bairros. Aos automóveis era vedada a passagem, mesmo porque, nenhum motorista se interessava em ficar atrás de um bonde.
Naquele dia eu tinha prova, pois além do ensino profissional tínhamos aulas do currículo secundário, português, matemática, história etc.
Estava passando de uma ilha a outra, absorto nos pontos que poderiam cair na prova quando um paralamas de caminhão vem em minha direção. Uma visão rápida e fugas. Apaguei completamente. Quem já foi atropelado sabe o que é sofrer esse tipo de trauma; nos minutos seguintes, fui acordar sentado na calçada da avenida cercado por várias pessoas que se acotovelavam tentando me dar amparo. Alguns diziam: vamos levá-lo pro hospital, pro pronto socorro, pra farmácia (tinha a do Rego, em frente). Com o passar do tempo, fui tomando conhecimento da minha situação e fiquei apavorado. Era época de frio, vestia uma capa “xantungue” e no instante do atropelo estava com as mãos nos bolsos. Vi que os dois bolsos estavam rasgados e tinha um tremendo “galo” na cabeça, no cucurutu mesmo.
Até hoje não sei o que realmente aconteceu, num instante eu estava de pé e dizendo a todos que não tinha nada e que fora apenas um susto. Já estava com receio de que minha família viesse a saber e que eu virasse alvo de críticas por ser tão desatencioso. Imaginem, fui atropelado e ainda por cima, receava as reações familiares. Tirei a capa, dobrei-a e tomei o bonde. Já estava atrasadíssimo para as provas. No bonde fui pensando, se tinha um galo na cabeça e bem em cima, é porque o caminhão me jogou pra cima e eu devia, pelo menos ser socorrido em um pronto-socorro, mas em contra partida, eu tinha medo que quando minha mãe, que era daqueles tipo de super-mãe, tomasse conhecimento, pudesse ter um ataque. Quando cheguei à escola, todos, colegas e professor, estavam preocupados, porque eu nunca atrasava e nunca faltava. Num dia de provas, eu não poderia dar “chabu”. No trajeto, o corpo deve ter voltado à temperatura normal, ou a recomposição dos órgãos internos voltado ao seu lugar, sei lá, só sei que as dores começaram a aparecer. Doía todo o corpo, me queixei com o professor e ele chamou o médico, fiquei o resto da manhã deitado, depois levantei, fui fazer a prova e fui bem. A cabeçada que tomei deve ter melhorado minha capacidade e as respostas às perguntas saiam com relativa facilidade.
Quando cheguei em casa, mostrando a capa e o galo, minha mãe quase desmaiou. Meus irmãos caíram pra cima de mim, com os comentários, mais ou menos assim: “ele na certa estava atravessando a avenida lendo gibi, vive no mundo da lua, é tão distraído que nem vê um caminhão pra cima dele…” e coisas do tipo. Posso garantir a todos que, se alguém sofrer um acidente desse tipo e morrer, morre sem sentir dor nenhuma. Eu acho que, no momento do choque, naturalmente são ativadas as defesas naturais do indivíduo, “desligando” todo sistema sensitivo do organismo. É como se esse sistema falasse ao dono do corpo: “eu fiz minha parte, desliguei tudo, se você morrer, não é minha responsabilidade”. Falo isso porque uma canelada no jogo de futebol me doeu muito mais do que ser atropelado por um caminhão. O caminhão era “Chevrolet Tigre” e o motorista não fugiu, estava tão assustado quanto eu.
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