Resedá, uma árvore derrotada

Senti vontade de escrever o texto abaixo depois que li o texto de Doris Day com direito a poema de Olavo Bilac, falando sobre o dia da árvore, além do lamento de Mário Lopomo sobre a dificuldade de manter uma árvore na sua calçada:

Ai, a beleza das flores e o encanto dos galhos das árvores balançando ao vento e refrescando nossas tardes. Propiciando-nos sombra, além de frutos e beleza. Encantamento.
Plantamos em frente ao nosso portão uma muda de resedá cor-de-rosa. Meu pai fez um cercado de madeira para protegê-la dos vândalos, apesar de morarmos numa rua sem saída e relativamente tranqüila. Digo relativamente porque houve uma época em que havia muitos garotos morando lá que se achavam donos da rua, para jogar bola e empinar pipas. Sou totalmente a favor do lúdico e da alegria das crianças, mas não gosto de injustiças. Volta e meia um galho de Resedá caído. Mas ela firme e florindo duas vezes por ano, com direito a fotos e tudo. Às vezes as crianças sentavam-se na nossa calçada sob a sombra de Resedá. Mas nem todas as pessoas param para reparar na beleza das árvores e também em suas utilidades. Houve um tempo em que uma moradora, amiga de um vereador, conseguiu que a prefeitura viesse cortar uma árvore grande dos fundos da rua, onde uma espécie de papagaios vinham comer as frutinhas de Santa Bárbara. Os homens não cortaram porque havia frutos. Graças a Deus. Alguns moradores alegaram que a árvore sujava demais a rua. E lá ia a moradora varrer para mostrar que era a dona do protesto. Preocupada com folhas secas enquanto seus onze gatos usavam nossos vasos de plantas para suas necessidades. Ironia!
Dava para perceber que não gostavam de nossa Resedá. Às vezes quebravam galhos de propósito. Um dia caíram as folhas, o que parecia normal por ser outono, e Dona Linda toda hora conferindo para ver se algum brotinho vinha chegando. E nada. Olhava as Resedás por toda parte por onde passava. Perguntava:
– Viu alguma Resedá em flor por aí, filha?
Pois Resedá não brotou. Continuou calada, em suas folhas e flores. Resolveram cortá-la, deixando um pequeno tronco plantado na calçada. Surgiram alguns brotos de cada lado, mas nada. Meu pai decidiu chamar um vizinho e arrancar o tronco. Não foi preciso força. O tronco estava mole e saiu com a maior facilidade. Doença ou maldade humana?
-Se quiser que a árvore morra, basta jogar água fervendo
Sugeriu um dia um vizinho a meu pai…
Chegamos a visitar o Instituto Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera para nos orientar sobre que árvore plantar. Lá nos informaram que o sabão no esgoto poderia ter matado Resedá. Será? Mais adiante meu marido comprou uma muda já grande de um jasmim manga da cor maravilha. Lindo. Pouco comum. Plantamos no lugar de Resedá, pois minha mãe disse que não queria outra da mesma espécie. Estava magoada. Um dia arrancaram o maior galho do jasmim. O que doeu mais foi ouvir minha mãe contar:
– Carregaram pela rua como um troféu de alegria o galho que arrancaram.
Vândalos. Até que a história teve um final feliz. Um dia minha mãe viu umas folhinhas familiares num vaso do terraço. Lembrou-se que havia plantado sementes da sua Resedá naquele vaso e elas finalmente haviam brotado. Pois a muda foi plantada no mesmo lugar da mãe. Cresceu, floriu com o triunfo de D. Linda, feliz porque havia perpetrado sua árvore com as sementes. Ano passado, quando se mudou de lá soube que tiraram a segunda Resedá da calçada, assim como outras plantas que não tivemos tempo de levar para outro lugar. Como eu já disse, muitas pessoas ainda não aprenderam a alegria das árvores, dos frutos e das flores. Eu que deixei a capital para viver em outra cidade, cada vez mais me encanto com as flores que vão nascendo para depois virarem frutas. O milagre das pequeninas mangas já arroxeando e tomando sua forma. Impagável. Inesquecível. Transformei a história de Resedá num conto voltado para crianças, quem sabe fazendo algumas delas se comoverem e olharem as árvores com os olhos da ecologia. Da maestria que está na natureza.

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