Essa é a minha São Paulo

Essa é a cidade que eu moro. Há 10 anos estou aqui. Desde os 5 anos de idade pensava em sair do interior e vir pra capital. Eu e mais milhões de pessoas, que saíram de sua terra para buscar o paraíso, mas ajudaram esse lugar a se parecer mais com o inferno. Não posso cuspir no prato que como, mas sabem como é: todo lugar tem sua graça e sua desgraça.
Nos primeiros anos de São Paulo, curti a graça. Morava ao lado da Av. Paulista e acompanhava as festas dos times, os desfiles gays, os movimentos políticos, passeatas, protestos, corridas de São Silvestre, teatro no Fiesp, exposições na Casa das Rosas, Masp e Centros culturais.
São Paulo de milhões de bares, shows no Ibirapuera, teatros, cinemas, pra quem tem dinheiro, São Paulo não tem fim. Bares novos, baladas novas, peças novas, sempre tem coisa pra fazer para os consumidores dessas culturas descartáveis.
Quando cheguei aqui, eu ainda era “paitrocinada”, meu pai me dava R$20 pra passar a semana. Ou seja, se eu quisesse ir a uma festa, tinha que ir a semana toda a pé para a faculdade e na festa não beber nada. Nunca fui de beber cerveja e se eu tinha uns trocados comprava uma sprite e bebia a noite toda com gelo (a maior pindura!).
O bom é que aqui em São Paulo, as mulheres que conseguem colocar nome na lista Vip e chegar antes da 12h, não pagam nada. Então, esse não era o problema. Saía de segunda a segunda, se fosse o caso. Mas aí, tem que se chegar até a balada. Nos primeiros meses, alguns colegas de sala ofereciam carona, mas quando viram que ficava só na carona, desencanaram.
São Paulo é uma cidade onde não se dá carona. Tudo é longe, sempre se pega trânsito e por mais amigo que a pessoa seja de você, ela te leva no máximo até o metrô. Raros amigos vão te levar em casa – ainda mais eu que morava do lado da Av. Paulista com a Brig. Luís Antônio – ninguém merece. Como eu não podia contar com caronas, eu pegava metrô (como eu morava perto da estação, era fácil).
Depois de um tempo, percebi que se eu continuasse a andar de metrô, não entenderia São Paulo. Por estar sempre embaixo da terra, perdia a noção de longe, perto e que bairro era qual. Comprei um guia da cidade – isso é ferramenta essencial para qualquer ser vivo aqui na capital. Deveria ser distribuído gratuitamente pela prefeitura. E assim, conheci o serviço 156 (informações da prefeitura sobre transporte público), assim como os ônibus.
Falo mal dos ônibus e dos cobradores que só dormem, mas eles são muito úteis aos sem carro como eu. Anotava em um papel o nome das ruas e ia conferindo o percurso do ônibus, perguntava ao motorista, ao cobrador e a qualquer um que sentasse perto de mim se eu estava no caminho certo e quanto tempo iria demorar (ainda que a resposta sempre acabasse com: "ah, isso depende do trânsito!”).
Depois de uns 5 anos em São Paulo, comecei a ver a desgraça. Os mendigos que mais parecem bichos, a pobreza que grita ao seu redor, o trânsito que é insuportável, a loucura que é trabalhar em uma cidade onde todos são workaholic e somado a isso a violência, o stress, o consumo desenfreado e a ganância de todos. Tudo aqui é muito caro.
Ainda que nesse tempo que aqui morei, nunca tenha sido assaltada. Talvez porque eu ande na rua como uma qualquer. Minhas roupas não chamam a atenção, estou sempre de tênis, mochila… Nem relógio eu uso. Nem com dinheiro na carteira eu ando. Então não vivo com medo. Ando pra cima e pra baixo a pé e fico tranqüila com isso.
Aqui o tempo é muito relativo. Você pode esperar uma hora pro ônibus passar, ou uma hora de carro pra andar 1km porque está tudo parado. Perto é um lugar que pode se chegar em meia hora. Assim também é o clima. Pode-se sair de casa com sol, o tempo virar e esfriar e cair uma chuva pra completar as quatro estações em um dia.
Já tomei muita chuva na cabeça. Fiquei amiga dela. Ela não me irrita mais. Não gosto de guarda-chuvas, mas entendi que às vezes é bom ter um. Mas melhor ainda é poder tomar banho de chuva e lavar a alma.
Embora quisesse largar essa cidade e desistir, vontade de fugir, ir pro meio do mato, comprar uma moto e sumir, algo me segurou. Pensar que a vida não é só sonho. Pra viver, temos que trabalhar. E quando eu fui escolher qual faculdade prestar, estava encantada por São Paulo e via aqui o melhor lugar para se trabalhar. Como vou ganhar dinheiro com publicidade no meio do mato? Esquece. Tive que encarar. E procurar aqui em São Paulo lugares que me fizessem melhor.
Assim vivo esse final de 10 anos. Sabendo que aqui tem muitos problemas, mas fugir daqui não vai colaborar para que essa cidade fique melhor.
Tento fazer minha parte, moro perto do meu trabalho para poder ir a pé e não pegar muito trânsito, vou aos finais de semana em lugares que me tragam mais paz como o Parque do Ibirapuera, o Jardim Botânico ou o Zoológico. Ficar perto do verde e praticar Yoga estão sendo grandes benefícios para se viver aqui. Além, é claro, de ter meu marido e minha filha por perto. Aí, vou terminar com a frase do Mastercard: isso não tem preço.

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