Alô… 344011

Anos 60, a boemia fazia parte da minha existência. Eu tinha fôlego de sobra e sono de menos. A música, de uma forma geral, corria por todas as minhas veias.
Era na realidade um verdadeiro pé-de-valsa, dançava se preciso fosse de segunda a domingo.
A rotina era marcante. De segunda a sexta eu freqüentava os night-clubs da “boca do lixo”, compreendida no espaço abrangido desde a Avenida Duque de Caxias até as imediações da Avenida Ipiranga e da Rua da Consolação.
Ali, todas as noites, encontrava com meus camaradas para os altos papos que procediam as noitadas dançantes.
Na Rua Marquês de Itu, entre as Ruas Rego Freitas e Bento Freitas, dois inferninhos tradicionais estavam estabelecidos, de um lado o Quitandinha Night Club e do outro lado o Havana Night Club, e era na porta do segundo que nos reuníamos: eu, o Nino (baterista e boêmio), o João (porteiro do estabelecimento) e, ainda, o Sr.Jair Rodrigues, na época lançando o primeiro 45 RPM, tendo no lado A o samba “Deixa que digam…” e no lado B o samba “Feio não é bonito”.
Esse disco havia sido gravado sob os auspícios de uma famosa dupla formada por Venâncio e Corumba que muito ajudou o Jair nas suas primeiras investidas musicais. Eu, na minha humilde condição de amigo da noitada, ajudei o Jair a “caitituar” seu disco em muitas boates da época.
Mas as lembranças chegando a borbotões me fizeram alterar o rumo da prosa, voltemos ao roteiro principal.
Aos sábados, o programa era diferente. Os Duques de Piu-Piu, depois de devidamente enfatiotados nos seus trajes de baile, devidamente jantados, se dirigiam até a Praça das Bandeiras, canteiro central, onde embarcavam no ônibus especial que os levava, juntamente com muitos outros freqüentadores, até os salões do “Recreio das Carpas” situado na Cidade Adhemar.
Foi ali que conheci a Ana, uma morena linda e elegante, que trabalhava no Laboratório Lily (um dia ainda conto como nos conhecemos).
O relacionamento com essa moça foi muito forte e, se eu não fosse o pilantra que era, poderia ter atravessado muitos anos da nossa existência.
Mas eu era partidário da liberdade e, então, não querendo perder a liberdade ou a “mina”, deixava as coisas flutuando.
Ela não sabia, exatamente, onde eu morava e para falar comigo telefonava para minha casa, sem saber que era ali que eu morava. A história inventada é que o telefone 344011 era de um bar em frente a minha casa e que me facilitava atender os telefonemas no horário do almoço.
Assim sendo, quando o aparelho chamava, meu irmão atendia com um Alô… 344011… o Miguel? Um instante que eu vou mandar chamar.
Eu dava um tempo, atendia a ligação e batia os maiores papos.
Ela realmente nunca desconfiou de nada.
O amor mais uma vez provava que era cego, surdo e mudo!

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