Ontem estava verificando os e-mails da minha caixa de entrada e deparei com uma mensagem que me dizia: “Parto Natural em Casa. Cuidado! Abra longe de crianças…”
A curiosidade havia sido aguçada, levei o cursor até o título e cliquei duas vezes para abrir a citada mensagem.
Logo no início vinha um texto explicativo que me avisava da realidade bruta das imagens que seriam exibidas e recomendava para os de tolerância menos impetuosa a não continuar a exibição.
Nunca tive problemas com pudor, com tabus ou preconceitos, cheguei a assistir várias autópsias quando no Cemitério do Araçá de antigamente, onde hoje existem as salas de velório, estava instalado, em construção mais modesta, o IML que se prestava a fazer autópsias e ao mesmo tempo ensinar os alunos da Faculdade de Medicina da USP.
Assisti inclusive, através de um vidro de vitrô quebrado, a autopsia da avó de um grande amigo meu, o Aldo. Ela, com idade bem avançada havia sido atropelada por um veículo, batido com a cabeça no solo e, em conseqüência, falecido. Vi tudo, vi serrarem o crânio, retirarem uma parte dos miolos, constatarem a “causa mortis” e depois enfiarem tudo de novo lá dentro. Fecharem o tampão, costurarem muito “delicadamente” o mesmo e, então, liberarem o corpo para a família velar e sepultar.
Assisti a tudo numa boa naquela época e poderia repetir esta experiência hoje novamente.
Então, não me preocupei com os alertas e continuei assistindo a exibição.
Realmente as imagens eram bastante chocantes, mostravam em diversas fotos, desde o princípio, o nascimento de uma criança sem nenhum aparato hospitalar, apenas com a presença do pai e da parteira.
Cenas chocantes e muito realistas. Fotos bem tiradas, de ângulos privilegiados e totalmente coloridas.
É emocionante, principalmente para quem, como eu, é pai e avô.
Depois de ver o e-mail por duas vezes consecutivas e ter certeza de que não tinha sido atingido por qualquer sentido de aversão ou espanto me lembrei que há alguns anos atrás, em 66 ou 67, não sei precisar, existiu uma revista intitulada REALIDADE.
Numa de suas primeiras edições, ela mostrou uma reportagem com inúmeras fotos reais da formação de um feto desde sua formação até o seu nascimento.
Na sociedade ainda “falsamente purista” da época foi uma bomba. São Paulo não tinha outro assunto, guardadas as proporções e as qualificações, os comentários eram do mesmo vulto que hoje se comenta o desastre da TAM.
A revista teve de ser reeditada, pois nos primeiros dias teve sua tiragem esgotada em todas as bancas de Sampa e do Brasil e passou a ser objeto de busca de leitores atrasados.
Lembrando as fotos brutas do e-mail e as fotos científicas da revista, percebi, mais uma vez, o quanto a comunicação alterou os princípios moralistas nesse espaço de tempo.
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