Brás, Bexiga e IPIRANGA

Esses dias fui ao Brás. Este que considero meu terceiro bairro do coração. Já é notório que o primeiro é e sempre será o Ipiranga. Foi por ele que cometi este crime de alterar o título do clássico de Alcântara Machado. Talvez um crime de um justiceiro. Não conheço nenhuma menção literária ao bairro do Ipiranga que não ligada a nossa independência. Independência que nada teve de moção popular. O próprio rio Ipiranga, juntamente com o povo, é que foi conformado à nova ordem. Percebam que ele descreve uma curva inacreditavelmente artificial só para passar em frente ao Monumento. <br>Nem mesmos meus compositores preferidos creditaram uma só letra ao Ipiranga. O Adoniran citou o Bixiga, Alto da Mooca, Brás, Vila Ré; sem contar as ruas da Sta. Efigênia. Vanzolini só como zoólogo ia ao Ipiranga. Como boêmio não. Há mesmo uma só música de Silvio Caldas intitulada Ipiranga. Relata o Grito do Ipiranga…<br>Dizia que fui ao Brás. Sim, desta vez de ônibus. Meu plano era descer no Lgo. da Concórdia, mas acabei descendo antes, próximo ao Largo do Brás. Nunca tinha notado a beleza deteriorada da Igreja Bom Jesus do Brás! Em meio ao trânsito da Rangel Pestana, tantos prédios antigos sendo lenta e cruelmente demolidos pelo tempo. Do mesmo modo que o Ed. Esther no centro. Tenho em casa uma foto dele dos anos 40, ousei compará-la com a imagem atual, ao vivo e a cores. A foto desgastada em preto e branco é mais bonita, sem dúvida.<br>O Bexiga, este felizmente muito lembrado, é meu segundo bairro preferido. O Bexiga do busto de Adoniran na Pça Dom Orione, da escadaria, e da Cantina Capuano, restaurante mais antigo de S. Paulo ainda funcionando. O Bexiga da (para mim incômoda) proximidade com a Paulista. Nada tenho contra ela, muito pelo contrário. Só tenho medo que a especulação imobiliária inclua as ruas estreitas do Bexiga na marcha triunfal dos espigões de vidro fumê, ou mármore branco. Já dizia o samba: "Bixiga hoje é só arranha-céu e não se vê mais a luz da lua". Certo dia ouvi dizer, não garanto ser verdade, que uma igreja do Bexiga tombada pelo patrimônio histórico é cortada por um viaduto que esconde suas torres. Soa muito verdadeiro…<br>Muitos escrevem, aqui neste espaço, histórias da S. Paulo de suas vidas. Relatos muito interessantes que permitem que eu, nascido no final da década de 80, conheça a S.Paulo das décadas de 40, 50, 60, 70. Mas e daqui uns 50 anos, eu com 68, o que será que vou escrever? Como irei descrever a S. Paulo do ano 2000? Como a que teve, no início do ano de 2007, uma obra do metrô engolindo transeuntes? Como a que não conseguiu controlar seu aeroporto, orgulho do passado, e permitiu que este ficasse nas mãos das companhias aéreas? A cidade marcada pela pressa? Pressa em entregar a obra do metrô, em entregar a pista de Congonhas, em liberar o tráfego da Washington Luís? <br>"Meus" bairros? Será que o Ipiranga será lembrado pelos condomínios que destruíram as casinhas antigas, tão subjetivas, portadoras da essência de nosso povo, demolidas para dar lugar a vários prédios iguais, com nomes em inglês ou francês? O Brás, será lembrado apenas pelo comércio agressivo de roupas, tecidos, pelos bolivianos que em regime de escravidão movimentam este surto consumista? <br>Pareço pessimista demais? A primeira vista concordo que sim. Mas na verdade, posso garantir que é um desabafo de alguém que, com muito otimismo, quer ver a cidade de São Paulo cada vez melhor. Respeitando seu passado, seus traços marcantes. Não entregue ao domínio irrestrito do lucro (que leva à pressa acima citada). Quero vê-la cada vez melhor porque, aconteça o que acontecer, não deixarei de admirá-la e de defendê-la. "São São Paulo,quanta dor; São São Paulo MEU AMOR!”<br>** À Barra Funda, minhas sinceras desculpas pela exclusão. A todos os demais bairros, meu sincero respeito e apreço.<br><br>e-mail do autor: [email protected]