Era Novembro de 1950 e meu pai me levou ao Parque Antártica, para ver um jogo do Palmeiras. Meu irmão José também foi. Não era esse estádio de hoje com jardim suspenso. Era o velho parque antártica, que tinha uma arquibancada de madeira atrás do gol de entrada pela Avenida Francisco Matarazzo. O jogo foi Palmeiras e Nacional. O Palmeiras ganhou de 4 x 1. Era meu primeiro jogo dentro de um estádio. O primeiro jogo a gente nunca esquece. A escalação, me lembro até hoje. Salvo algum engano, foi: Oberdã, Turcão e Osvaldo. Waldemar Fiume, Luiz Villa e Sarno. Nestor, Montagnolli, Aquiles, Jair e Rodrigues. Os gols do Palmeiras, sinceramente, não lembro quem marcou.
Mas o gol do Nacional eu me lembro, como se fosse hoje. Foi o zagueiro Turcão. E marcou contra as suas próprias redes. Um jogador do Nacional chutou um escanteio e a bola bateu no bico da chanca (chuteira) do Turcão, que estava à frente de Oberdã, e foi para as redes. Do Nacional só me lembro do goleiro, Furlan, e do meia esquerda, um negro alto, com o apelido de Charuto.
Mais tarde eu fui pela segunda vez ao estádio. E dessa vez sozinho. Foi em 1956. Palmeiras e São Paulo, o choque rei do futebol paulista, segundo Tomas Mazzoni.
Mais uma vez estava Turcão em campo. Só que agora envergando a camisa do São Paulo F.C. E Turcão marcou outro gol. De novo contra o Palmeiras. Foi de falta. O goleiro Nivaldo do Palmeiras estava no gol da concha acústica. Turcão jogou a bola por cima da barreira e ela foi para as redes. Nivaldo só olhou sem esboçar a defesa. Advinha como xinguei ele.
57 anos depois de vê-lo pela primeira vez em campo, estou à frente dele em sua residência no Brooklin, onde mora há muitos anos, relembrando seus feitos no futebol.
Estando a mesa conversando, surge dona Marisa sua esposa. Sorriso, permanente, conversando com desenvoltura mostrando que mesmo de longe dos estádios estava a par da carreira do seu marido. Não precisou muito para perceber que é um casal que se da muito bem. Percebe-se o carinho que existe entre ambos, até mesmo nas correções da parte da história. Suas filhas demonstram muito carinho pelos pais. Sai de lá certo que tinha estado num lar de muita harmonia e felicidade. O casamento se deu a 31 de janeiro de 1951, três dias depois do jogo final do campeonato paulista de 1950, em que o Palmeiras se sagrou campeão do considerado Ano Santo. Como esposa, dona Marisa era igual às outras tantas esposas de jogadores, que detestavam o tempo que os maridos ficavam longe de casa devido às concentrações e viagens que tinham que realizar para jogos interestaduais e internacionais.
Turcão como futebolista foi diferente de muitos jogadores, que esbanjaram dinheiro, com noitadas, mulheres, jogo, etc. Guardou dinheiro e fez valiosos investimentos em imóveis. Com sua esposa Marisa construiu uma belíssima família. Dessa união, de mais de cinqüenta anos, vieram quatro filhos. Todos formados. Carlos Alberto (economista e administrador de empresas), Márcia Maria (professora de preparação física), Sandra Maria (dentista) e Silvia Maria (bióloga).
O senhor Alberto Chuari, o Turcão, é dono de uma boa memória, vai falando de todos os lances que vem a cabeça. Quando ouviu meu relato do seu gol contra, no jogo contra o Nacional, parece que não se lembrava: – Bem, tinha bola que às vezes não dava para dominar, e bobeando a bola entrava. Mas eu fiz muitos gols a favor também dos clubes em que joguei. Palmeiras, São Paulo.
Tive que ouvir o gol que marcou no meu Palmeiras, naquele segundo jogo da minha vida no estádio do Pacaembu, em 1956. Aí sua memória brilhou. E foi falando.
– Olha, foi uma falta da intermediária, ali no gol da concha acústica. O Goleiro do Palmeiras, um Paranaense…
– (não se lembrava o nome) sua memória foi reavivada: Era Nivaldo, disse eu.
– Então ele fez a barreira no canto direito e eu chutei por fora da bola que fez uma curva e foi no ângulo. Tinha fé que marcaria aquele gol. Fiquei muito feliz. Foi uma vingança contra o senhor Mario Frugiuélli. Ele vendeu meu passe para o Guarani por 200 mil cruzeiros sem eu saber. Isso, para não vender ao São Paulo, que oferecia 600 mil. Era uma oferta oficial do São Paulo. Fiquei dois meses no Guarani. O São Paulo foi lá e me trouxe para o Canindé. Mas a minha bronca não foi só por ele ter me vendido sem eu saber. Logo depois do título de campeão de 50, fui renovar meu contrato, e ele me ofereceu oito mil cruzeiros de ordenado. Não concordei. E disse: o senhor paga 20 mil para o Sarno que estava há seis meses no clube e eu que vim dos juvenis, passei pelos aspirantes, e fui para o time principal, ganhando títulos, não está certo isso.
– Como você sabe disso?
– Ele me falou. Os jogadores conversam entre si. Então ele me abraçou dizendo a meu irmão mais velho que eu era como um filho para ele. Mandou vir no dia seguinte para assinar o contrato de renovação. Naquela mesma noite ele me vendeu para o Guarani por 200 mil cruzeiros….Eu era um filho para ele. Imagine se não fosse! No dia seguinte quando fui ao parque antártica estava lá o presidente do Guarani com meu passe na mão.
Mas o pior foi outra coisa que aconteceu. E muito sério. Fui chamado de mau caráter, de desonesto. Mexeram com minha honra. Eu que sempre fui um cara honesto. Na véspera do jogo final do campeonato paulista, com o São Paulo, estávamos concentrados no hotel da fonte Sonia em Valinhos. Meu irmão mais velho que estava tratando dos papéis do meu casamento, festa e outros detalhes, ligou para o hotel. Quem atendeu foi a esposa do Ferrugio Sandoli, que era dono do colégio Ipiranga. Ela passou a ligação para mim e ficou na extensão ouvindo a conversa. Meu irmão me disse: Tôto (como sou conhecido na família) o dinheiro acabou. Falei: – isso não é problema. Eu arrumo quanto você precisar. Traz os cheques todos que você tem ai. Ela ouvia toda a conversa, mas não entendia nada, só ouvia a palavra dinheiro. Então ela deduziu que estava rolando dinheiro do São Paulo para eu amolecer o jogo. Gaveteiro naquela época era palavra comum na boca de dirigentes e torcedores. Meu irmão foi lá com outras pessoas, demos um passeio, mostrei a cidade, o Cristo deitado que tinha a frente do hotel. Depois voltei à concentração. Um dia antes do jogo final contra o São Paulo, o técnico Cambom (Ventura Cambom) veio me dizer que eu não ia jogar. Fiquei sem saber o porquê e fui dizendo: – Mas como, disputo o campeonato todo, na última partida eu não vou jogar? – Bem, é ordem da diretoria. Parece que ficaram sabendo de algo sujo a seu respeito. Aí, deduzi que era por causa da conversa que tive com meu irmão e havia “ouvidos por trás da porta”. Fui até aos diretores e falei tudo o que tinha que falar. Trouxe meu irmão, veio o Nicodemo Padula que era dono de cartório e disse: – você vai jogar sim, fica tranqüilo. Joguei, e joguei bem. Quando estava saindo do vestiário, já campeão, os diretores vieram me abraçar e eu recusei o abraço deles. Foi uma coisa muito feia que fizeram comigo, pensar que eu era desonesto. Jamais passou pela minha cabeça isso. Joguei no palmeiras desde o Pi na camisa. (Palestra Itália). Depois teve que mudar o nome por causa da guerra.
Com respeito ao jogo que deu o título de campeão ao Palmeiras, Turcão contesta a opinião de quem diz que Teixeirinha não estava impedido, no gol anulado pelo juiz Mister Bradley:
– O bandeirinha estava certo. O Teixeirinha vinha de traz de mim para receber a bola. O bandeirinha levantou a bandeira antes de ele se posicionar em condição de jogo. Fiquei só dois meses no Guarani. O São Paulo foi lá e comprou meu passe. Fui assinar contrato direto com o presidente Dr. Cícero Pompeu de Toledo lá no tabelião dele (ele era tabelião). O contrato já estava pronto, peguei e assinei. Doutor Cícero me disse: Uai, você não lê o contrato, assina assim sem ver?
Não senhor. Não precisa. (se emociona) O senhor nem sabe o valor moral que isso tem para mim. O senhor se lembra daquele 1 x 1 que o São Paulo perdeu o título? O senhor era o presidente. Não me pergunte por quê. Ai ele olhou para mim. Devia ser um homem inteligente. Disse: tudo bem. Falei: não quero dinheiro nenhum, só quero jogar no São Paulo. Porque essa diretoria era daquele jogo e não iria contratar um jogador venal. Ele olhou para mim e disse: Não menino. Desce lá, na avenida Ipiranga, 1248, que tem 100 contos que é para você pegar. Eram luvas que existia naquele tempo, quando se assinava um contrato. Quando estava já no campo treinando o senhor Feola, (sabe que ele morreu né? Dona Joaninha também) me perguntou se tinha alguma coisa boa no guarani para ser contratado. Disse que tinha um negrinho magrinho muito veloz, era o Maurinho, que jogou por muitos anos no São Paulo. Também o Amauri (Marreco)fui eu quem trouxe para o São Paulo, foi ele quem abriu a contagem naquele 29 de dezembro de 1957, contra o Corinthians.
– Porque o senhor não jogou naquele jogo?
– Eu estava machucado, estava com o joelho estropiado. Foi justamente contra o Corinthians no primeiro turno. Eu evitei um gol, e estava caído, o Boneli ao fazer a defesa caiu em cima do meu joelho e com o peso do corpo deixou tudo desconjuntado. Fiquei um ano sem jogar. Quando estava recuperado, veio o Luiz Gonzáles perguntou se eu queria ia para Recife. Fui emprestado para o Santa Cruz, fiz quatro jogos quando muito. Vi que não dava mais. Voltei para o São Paulo. Doutor Manuel Raimundo me deu três meses de salário e me liberou. Depois fui trabalhar nas indústrias Matarazzo. Era cobrador. Oh coisa chata de se fazer. Mais tarde fui trabalhar na Kibon. Cheguei à gerente…
– O senhor viu o primeiro jogo do Palestra Itália, como Palmeiras em 1942?
– Sim vi. Eu não jogava. Era juvenil. Mas assisti esse jogo. Entrou o general Adalberto Mendes, do Exército, com a bandeira Brasileira à frente dos jogadores. Ganhamos por 3 x 1. Quando o Og Moreira ia bater o pênalti que seria o quarto gol, o Luizinho Mesquita tirou o time de campo. Aquela camisa é que era a verdadeira camisa do Palmeiras. Verde, com o branco na gola, com as mangas também frisos brancos, e com o P no peito. Não essas camisas de hoje, que muda sempre. Outro dia fiquei envergonhado, o Palmeiras jogou com uma camisa cinza. Gostaria que os diretores de hoje vissem esse detalhe.
– Turcão você se lembra bem de quando Jair veio para o Palmeiras.
– Sim, me lembro bem. Foi em 1949. E nesse mesmo ano fez sua estréia contra a Portuguesa de Desportos. Teve uma falta contra a Portuguesa, eu coloquei a bola com carinho. Era eu quem batia todas as faltas. Aí veio Jair, bateu nas minhas costas e falou: Mano, deixa bater? Falei: pode chutar. Já conhecia seu cartaz do Rio de Janeiro. O goleiro da Portuguesa era o Caxambu, que caiu na asneira de fazer sinal para abrir a barreira. Foi uma bomba, amigo, que o Caxambu (que deus o tenha) nem viu passar. Caxambu era um goleiro negro. Cidadão bom, viu. Honesto, gostava muito dele, fomos grandes amigos. Agora, goleiro mesmo era o Oberdã. Para mim ele foi o melhor goleiro de todos os tempos. Nem mesmo o Gilmar foi melhor do que ele. E olhe que o Gilmar foi um goleiraço. Jair também era muito legal, tinha aquele jeito malandro do carioca.
– Turcão. É verdade que o Jair pedia dinheiro extra antes dos grandes jogos para jogar?
– Não… Isso é conversa de botequim. O que acontecia era que tinha um diretor que era industrial que gostava muito do Jair, e dava algum por fora para ele jogar bem. Era o que a gente sabia. Gostava muito do Waldemar Fiume. O grande injustiçado do futebol brasileiro era um centro médio dos melhores e nunca foi convocado para a seleção brasileira. Antes ele era meia, direita. Formou ala com Cláudio, que depois foi para o Corinthians.
– E o Luizinho, o pequeno polegar do Corinthians, é verdade que ele sentou na bola na frente do Luiz Villa?
– Não é verdade. Ele driblava o Villa todas as vezes que jogava. Chegou a passar a bola por baixo das pernas. Mas sentar ele ameaçou fazer isso uma vez, mas todos nós gritamos com ele. Eu mesmo cheguei a falar para ele fazer comigo aquilo que fazia com o Luiz Villa. Ele não era louco!
– Meu pai foi um dia no Pacaembu quando o Bovio saiu do Palmeiras e jogou pelo São Paulo contra o seu ex. time. Me lembro que ele chegou em casa e disse para minha mãe que você quase quebrou ele no meio.
– É verdade, ele era meio sei lá, deixa isso para lá.
– Ele era bigodudo, e morava na avenida nove de julho, não?
– Sim, morava lá, era aquele jeitão argentino de ser.
Turcão era um autêntico pai para diversos jogadores. Ele sempre estimulava seus colegas de clube a comprar uma casa. Muitos deles compraram casas no Brooklin, Maurinho, Bauer, Canhoteiro, todos eles incentivados por Turcão, existe até uma pontinha de emoção quando se lembra disso. Uma pena que muitos deles morreram bastante pobres.
Na verdade Turcão foi brilhante tanto como jogador de futebol como chefe de família, minha tese de que os jogadores não ganhavam tanto como os de hoje, mas ganhavam bem, foi confirmado por ele. Turcão soube muito bem o que fazer com dinheiro que ganhou, construiu uma família, criou os filhos deu estudo a eles, e hoje colhe a semente dos bons frutos que vieram. Quem disse que um jogador de futebol não tinha condição de chegar aonde Turcão chegou?
e-mail do autor: [email protected]