Phone: 81-5236 (recados)

Já lá se vai o tempo das diligências. Eu, na verdade, nunca as vi. Só em filme americano de bandido e mocinho. Em filme de faroeste, ou farwest, como diriam o Ualter e o Uoshington!

Mas vi outras coisas, que hoje se a gente contar pros mais jovens, eles não vão acreditar. Pois é, como aquilo que eu estava falando pra um amigo da mesma idade. Perguntei pra ele se lembrava do macaco. Não o do carro, nem o do zoológico, mas o macaco sobre o móvel da sala da casa dos meus pais. Aquele telefone de baquelite preto, que o povo apelidou de macaco.

Não é que ele lembrou. Mas como poderia esquecer! Afinal pouca gente possuía telefone em casa. Era coisa de rico. Pouquíssimos aquinhoados o possuíam. Não que fossemos, mas no nosso caso era mais por necessidade. Como meu pai tinha comércio, o telefone era vital.

Assim éramos umas das poucas famílias no bairro que tinha telefone em casa. O tal do macaco. Então, que acontecia? Como todo mundo nos conhecia na região, por conta do comércio do meu pai, muitos vizinhos nos pediam para utilizar nosso telefone. Nos pediam inclusive permissão para passar o número de nossa linha para amigos e parentes.

Assim nosso telefone passou a ser um tipo de aparelho da coletividade local do quarteirão. Um tipo assim, digamos, de orelhão comunitário. Um macaco social. E isso era uma coisa meio que comum. Quem tinha telefone, sabedor que era de sua condição incomum, disponibilizava sua linha para essa finalidade grupal filantrópica.

Então era um tal de vizinho aparecer lá em casa pra fazer ligação. E não tinha hora não. Era desde de manhã até a noite e mesmo de madrugada. Pensa que se davam de rogados. Que nada. E quanta paciência dos meus pais. Nunca os vi recusarem a entrada em casa para algum vizinho. Mesmo porque aquilo ali era uma coletividade e minha mãe vivia dizendo que uma mão lavava a outra e que a gente nunca sabia do dia de amanhã. Hoje são eles, amanhã nunca se sabe… Essas coisas que mãe vive falando e pai nunca se opõe. Afinal, ai dele…

Mas o telefone não servia só para fazer chamadas. Ele também recebia as ligações. E como disse que muitos vizinhos nos pediam para passar o numero da linha para os parentes e amigos, imagina o que acontecia. Era um tal de ligarem. Era ligação da Sonia pra sua tia, Dona Gina. Era ligação do Américo pra sua avó, Dona Guilhermina. Era ligação do Domenico pro seu pai, Seo Gennaro. Era ligação do Seo Venizelos para sua esposa, Dona Harmonia. Era ligação do Seo Samir para o Seo Nagib. Era ligação da Tita pra Dona Sinhá. Era ligação da Tieko pra sua irmã Mitsuko. Era ligação do Aristides pro seu tio, Seo Araújo.

E os recados… Era recado da Edna pra sua mãe, Dona Benedita, pedindo pra avisá-la que marcara o médico pra quinta-feira. Era recado do Seo Geluffo, lá do jornal, pedindo pra avisar sua esposa, Dona Ruth, que iria chegar mais tarde. Era recado da nova cliente do Tico, pedindo pra avisá-lo pra começar a pintura na casa dela na próxima segunda-feira. E era eu correndo atrás desse povo todo pra chamá-los para atender as ligações e dando os recados. Só tinha que sobrar pra mim mesmo, batendo de porta em porta avisando toda essa gente. Pois é, eu era o garoto de recados!

E nessa de usarem nosso telefone, nós de casa acabávamos por saber praticamente da vida de quase todos os vizinhos. Não que quiséssemos, pois geralmente o telefone e a conversa até atrapalhava nossas atividades domésticas, principalmente as referentes aos programas de televisão. Muitas vezes eu acabava sem entender a melhor parte do desenho que estava assistindo, por causa da conversa dos vizinhos e seus parentes ao telefone, dispersando a minha atenção. E até parece que as conversas eram que meio repetitivas. Parece que naqueles tempos, o tempo levava mais tempo pra passar, e as coisas demoravam mais para acontecer.

Hoje, ainda bem que existem os celulares. Cada um com o seu. Alguns até com mais de um. Estão presentes em todos os cantos. Nas casas, nos carros, nos ônibus, nas lojas, nos bancos, nos shoppings centers, nas escolas (pra alegria das professoras). Nos cinemas e nos teatros, a revelia dos atores. E nos presídios então!

São tantos celulares. Dizem que cem milhões. E tem gente que tem até mais de um. Dois ou três. Talvez um para receber e outro pra fazer ligação. Ou um para falar com fulano e o outro com beltrano ou cicrano.

Como o mundo ficou mais perto e mais interligado. Mas ao mesmo tempo, mais isolado, pelo menos dos vizinhos!

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