Mais memórias (continuação)

O Baile continuou e eu, eu continuei a dançar com a menina e assim foi até o final da matinê pedi a ela que esperasse um pouco, fui até o microfone e, novamente, com a voz impostada e o fundo musical de Glenn Miller disse:
– queridos amigos, com este sufixo musical, a Comissão pró formatura esperando que tenham passado horas alegres em nossa companhia, agradece a presença de todos e informa que os aguarda, com muito carinho, para o próximo baile. Boa noite a todos.
Deixei a música rolando e fui ao encontro da garota de quem, até aquele momento eu só sabia o nome, Cidinha.
Encontrei-a na porta do salão. Sugeri, então, acompanhá-la até sua casa, ela aceitou e iniciamos a descer as escadas que nos levaria ao portão principal.
No meio da escadaria encontramos com outro aluno que parou para cumprimentá-la e ela, respondendo ao cumprimento me apresentou como seu namorado (Ah essas mulheres!!!).
Não falei nada sobre o assunto, como se dizia na época “me manquei em copas”. Levei-a até a porta de sua casa que era na Rua Augusta, 1172, e voltei para o colégio para ajudar na montagem das salas de aula.
Durante a semana seguinte, tentei encontrar com a Cidinha, mas ela escapava do encontro como um “bagre ensaboado”.
Eu, malandro e boêmio, não conseguia admitir que estivesse levando um baile da garota. Insisti e, finalmente, consegui cercá-la e conversar.
Fiquei sabendo então que a minha apresentação ao Milton como namorado dela, tinha sido para provocar ciúmes, já que eles haviam namorado e estavam brigados.
Resumindo, dei uma bronca danada, mas o olhar de arrependimento me convenceu e, então, começamos a namorar.
Foi um namoro cheio de altos e baixos, brigas, retornos, novas brigas, novos retornos.
Em 1965, continuávamos namorando e em 1966 já estávamos noivos, alguma coisa havia mudado no nosso status colegial, ela estava cursando o 4º. ano básico e eu que me formava naquele ano também, havia sido nomeado assistente e substituto do Prof. José Pinto, na matéria de contabilidade, e ministrava aulas na classe onde ela e mais dois amigos de noitadas estudavam.
Nunca misturei os relacionamentos externos com o ambiente e as condições da sala de aula, porém, eles não acreditavam na minha rigidez.
Eu continuei a ministrar aulas e eles a não acreditar que eu estava levando a coisa a sério.
Chegam as provas finais, entro na classe, entrego as folhas que eu tinha preparado com esmero, autorizo o início da prova e, quando olho para o fundão, vejo a cara de desesperados dos três e aviso “a coisa é séria, nem tentem colar”…
Passado um tempo, eles caíram na real e perceberam que não iriam ter moleza, então, um de cada vez, levantou-se e entregou a prova em branco.
Pedi que me esperassem no pátio e, depois de terminada a prova fui até eles, ouvi suas queixas e lamurias e entre elas as de que não poderiam curtir as festas da formatura por estarem de 2ª. época.
Prometi, então que eles poderiam participar das festividades, desde que durante o período anterior à prova se dedicassem a aprender.
Prontifiquei-me a ensinar-lhes a matéria diariamente e foi assim que foi feito.
No final de 1966 marcamos a data de nosso casamento, eu e a Cidinha nos uniríamos em matrimônio no dia 15 de Março de 1967.
Passadas as festividades de formatura, chega fevereiro e com ele o dia das provas.
Lá estou eu de novo à frente dos alunos e autorizei o início da prova.
Como eram poucos, ao final da prova eu pedi a eles que saíssem e iniciei a correção.
Corrigi primeiro a dos meus amigos, as notas foram médias e eles conseguiram aprovação raspando na trave. Fui corrigir, então, a prova da minha futura esposa.
Devidamente corrigida, somei as notas parciais de cada questão e conclui (eu já sabia a nota que ela precisava) que ela havia repetido por falta 0,3 na média.
Usando de toda a honestidade, assinei a nota sem arredondar nada e entreguei na secretaria. Sabia que estava arriscando até meu casamento, mas não poderia ser desonesto com a minha consciência.
Saímos e no caminho para a casa dela contei o ocorrido, a princípio ela não acreditou, mas, depois, caiu na real e chegou chorando à porta da sua casa. Entrou sem me dizer nada.
Fui embora para casa e tive uma noite terrível, o telefone tocou diversas vezes, foram meus amigos professores, foi o secretário da escola, foi o dono da cantina, todos pedindo que eu reconsiderasse a decisão, não concordei. O último telefonema foi o do Prof. João Baptista Negão, diretor e dono da escola que em voz grave disse-me apenas o seguinte:
– Miguel, quero você amanhã às 8:00 horas em ponto na minha sala.
Eu fui, entrei e depois de me fazer ouvir uma seleção de palavras de baixo calão e impropérios, ele me disse, vai lá na secretaria, corrige a nota, case-se e seja muito feliz, ou então, vou eu com a minha autoridade de Diretor e faço essa correção.
Não aceitei e ainda retruquei: Negrão, se você fizer isso estará truncando minha carreira de professor deste colégio e mais, minha vida nesse colégio.
Ele quu fez, e eu nunca mais dei uma aula em minha vida, e só entrei no colégio novamente, um pouco antes dele ser demolido e quando já não era mais da propriedade do Negrão (que hoje já está lá no andar de cima).
Ah! Passada a trovoada, me casei e vivi feliz por 32 anos junto da Da. Cidinha, dos meus filhos e dos meus netos.

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