A prostituta

Bonita elegante, loira de cabelo a altura do ombro, idade de 30 a 35 anos. Seu nome Irene. Andava sempre na moda, e na metade dos anos 1960, a moda era mini-saia. Mas ela usava a saia quatro dedos acima do joelho. Perna roliça de fazer inveja a muita gente. Usava blusa decotada tanto em “v”, como retangular, deixava transparecer parte de seus seios a mostra e era visível que não usava sutiã. Chamava a atenção de todos. Os homens ficavam maravilhados. As mulheres iradas.
O comentário sobre ela, era de que não passava de uma grande prostituta. Recebia gracejos de toda ordem, não estava nem aí. Às mulheres pouco faltava para agredi-la física ou verbalmente. Seus maridos eram bastante vigiados. Mas o fato era que Irene não dava bola para ninguém, nunca tinha conversado com nenhuma delas e muito menos com homens do bairro. Mas ficava sempre aquela ponta de dúvida para as mulheres que não faziam nada, além de ficar no muro bisbilhotando a vida dos outros.
Irene, andava de cabeça erguida, sorriso espontâneo, sabia de sua fama, e não dava ouvido a ninguém, afinal não devia. Tinha uma personalidade forte. Baseado numa música italiana da época, que fazia sucesso, muita gente a ligava com a casa da Irene.
Morava numa rua do bairro do Brooklin. Ia todo o dia a pé até a avenida Santo Amaro pegar o ônibus para a cidade. Havia muita curiosidade por parte das pessoas, em saber para onde ela ia todos os dias. Uma delas resolveu segui-la um dia. Tomou o mesmo ônibus que ela. No Anhangabaú, ela desceu atravessou o vale, e sua seguidora atrás. Depois que subiu as escadarias que levam ao prédio da Light, ela atravessou a rua, Xavier de Toledo, foi cumprimentada respeitosamente pelo guarda Luizinho, e entrou no Mappin.
Sua seguidora também, mas como subia a escada mais rápida, Irene ficou fora das vistas da fofoqueira.
Não muito tempo depois, essa mulher que a seguiu foi ao Mappin fazer compras, coisa que todos faziam. Foi com o marido comprar malas para viagem. No setor de vendas bateram de frente com a vendedora que era justamente Irene. Estava sem suas roupas extravagantes.
Uniforme do Mappin, saia e blusa branca com detalhes em verde com o broche de retangular de metal com o nome da loja. A mulher ficou sem saber o que fazer, mas o marido dela conversava com Irene sobre preços, e outras coisas a respeito da compra, mas se via nele os olhos brilhando em ver o rosto de vendedora loira de olhos verdes.
Tanto ela, Irene, como ele, marido da fofoqueira, sabiam que eram vizinhos. Nem a fofoqueira Irene conhecia. Depois desse dia ficou positivado que de prostituta Irene não tinha nada.
Essa mulher era nossa vizinha e contou para minha mãe, que também achava Irene uma boa bisca (como se dizia), que não tinha visto nada contra ela. Mas que ia ficar de olho no marido, porque sentiu que ele ficara encantado. E, sendo ambos do mesmo bairro, podiam se encontrar mesmo por acaso. Daí sabe como é, né, dona Linda.
Um dia um ex. casado, foi ao seu encalço e conseguiu iniciar uma amizade. Aquela amizade com interesse sexual. Não demorou muito para que o conquistador a convidasse para ir a um motel, e o fez com indiscrição: – Que tal estarmos juntos numa bela cama de hotel cruzando nossos corpos? A resposta veio de imediato:
– Isso que você quer fazer comigo, sua mãe faz, sua irmã faz. E sua ex. mulher também.
Eu também faço. Agora é preciso saber com quem se vai fazer. Tenha uma boa viagem de volta, ao seu passado.
Por aí pode se ver como era hipócrita a nossa sociedade de anos atrás. A mesma sociedade que se espanta, nos dias de hoje com certas palavras expostas nos textos apresentados.
Mario Lopomo

e-mail do autor: [email protected]