Qualquer paulistano – por menor que seja o interesse pelo assunto – pode perceber a importância do transporte coletivo na expansão urbana da cidade. Ônibus, e antes dele bondes, além de trens de subúrbio, não podem ficar à margem quando se contemplam as mudanças, ao longo de décadas do século passado, por que passou a Paulicéia. Da São Paulo que viria a ser metropolitana. Nesse contexto, até cabe relembrar uma linha de ônibus. Embora com uma “demão” de nostalgia… Memória é passado, claro; que é também nostalgia.
Linha 48 – Paraíso: que partia do Anhangabaú. Uma das originárias da CMTC, de 1947. Do meu tempo de moleque (anos 50). Pois até por volta de 1958 os ônibus daquela linha (como os de outras da região) eram de mecânica inglesa. Importados que foram os chassis em 1948 (diz um jornal de arquivo). Contemporâneos lembrarão: Aclo, robustos, duradouros. Davam uns trancos no percurso. Tinham um câmbio diferente: uma pequena alavanca sob o volante do motorista. Lembro bem ainda de que, no piso, lá perto do posto do motorista, havia como que um grande logotipo. Como se fosse uma "assinatura", uma rubrica de metal, claro. Em "letra de mão": Grassi! Tradicionalíssima fabricante de carrocerias. Primeiro, da Conselheiro Nébias (antes de mim, que sou de 1947), depois na Vila Leopoldina. Carros outros havia, da linha 48, com plaqueta da Companhia Americana Industrial de Ônibus – que eu presumia americanos mesmo. Só que a carroceria nascia na Guaiaúna: outro sustentáculo da indústria nacional do transporte, a Caio! Ambas paulistanas. De coração italiano.
Paraíso, linha essa em que meu pai me levava, vez por outra, passear na "Cidade" – passeiozinho de pobre… Domingo ou feriado, quando não ao Ibirapuera, ou à Aclimação, ou ao Aeroporto. Admirar o "progresso" da "Cidade que mais cresce no mundo!"… Jornais de anos imediatamente antes do IV Centenário não se cansam de exaltar a pujança da Paulistânia… Prédios altos! Banespa, Martinelli, Banco do Brasil; Túnel Nove de Julho, a Galeria, linda! Viaduto do Chá, o Santa Ifigênia – bela ferragem à mostra! A São João, jardinzão do Anhangabaú, o Theatro Municipal; o esguio prédio da Biblioteca, o Mappin… Eu gostava muito!
Ponto final do 48: Amâncio de Carvalho esquina com Pelotas: em frente a um bar de um senhor português, de cujo nome não lembro. Roteiro: pedacinho da Tutóia, Pirapora, Curitiba (do então parquinho infantil) cuja Travessa Paranaguá mudou de nome; Abílio Soares – muito arborizada, de tipuanas; o enorme quartel do Exército, próximo ao majestoso Ginásio; uma fábrica de artefatos de borracha defronte ao quartel; casarões como o da esquina com a Cubatão, grandão (Cubatão, por onde passavam outros Aclo: os da linha 47 – Vila Clementino). Bernardino de Campos, tranquila de trânsito; Praça Oswaldo Cruz, do índio pescador; Sears Roebuck, começo da Treze de Maio – de brinquedos (para mim) tão inacessíveis quanto inesquecíveis… Descendo a Treze de Maio – lógico, sem o viaduto de hoje – virando à direita na Brigadeiro. Também de casarões, a Brigadeiro do bonde 40 – Jardim Paulista.
Até a Asdrúbal do Nascimento – uma rampa – rua do temível (para a molecada mais danada) Juizado de Menores. E, finalmente, o lindão Anhangabaú! Onde, imponente, sobressaía quem? Ora, o Viaduto do Chá, soberano da paisagem! Viaduto o qual, com o tempo – sucessivas obras viárias – acabou por ter as "pernas" meio que amputadas: ficou mais baixo, sob o arco central! Menos mal que removida a horrenda passarela que lhe puseram sob! O "Buraco do Adhemar"… Mais ao fundo, o Santa Ifigênia: horizonte sem fim, eu nem imaginava onde terminar! Galeria Prestes Maia, admirável! Por derradeiro: um saquinho de pipoca, o suficiente…
Retorno: quase que o mesmo caminho, pequenas variações. Subia a Santo Amaro para ganhar a Brigadeiro; Rafael de Barros (um quarteirão) e Cubatão (mais três): tudo igual, Abílio, etc. Um "balão", antes do final: Caravelas e "Timbuhy" – que hoje não é nem Timbuí – uma vez atualizada a ortografia.
Em 1958, Adhemar de Barros prefeito, a CMTC compra um montão de Mercedes: os Aclo (quase todos) desaparecem. Duas operadoras "particulares" entram na rota: a Santa Amélia, com a linha (pioneira) Zoológico. E a “Paratodos”, de cuja linha não me lembro. A CMTC (assim como viria a fazer com outras linhas) abre mão da linha 48: os alunos do Rodrigues Alves não mais utilizariam o "Paraíso"…
Uma dose de nostalgia. Sim, tenho saudade da linha 48. A qual me proporcionou singelos passeiozinhos. É claro, tudo muda. Ora infeliz, ora felizmente! Eternos? Só os dias e as noites – com a também perpétua alternação.
Se a cada qual de nós facultado fosse "eternizar", senão o melhor, mas um momento qualquer, eu por certo poderia escolher a infância. Cuja trajetória incluiu a rota do 48 – Paraíso. O qual, por sua vez, restou recolhido à garagem. É claro, garagem da saudade…
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