1947 – Brincadeiras de moleques

Vila do Sapo, onde hoje é o final da Rua Jorge Chammas, perto do Detran. Além de brincar de esconder, brincar de "Mandrake, licença" e de caubói, haviam brincadeiras que exigiam certa perícia e os que se destacavam eram admirados e invejados pelos demais. Por exemplo:

Box – Consistia de um círculo de aproximadamente 80 cm de diâmetro riscado na terra e com um buraco no centro. Era jogado com bolas de gude. Para sortear a ordem dos jogadores, cada um 'estecava' (com a bolinha presa pelo dedo indicador, dava-se um golpe súbito com o polegar) sua bola em direção ao box ou buraco central. Jogava primeiro o que acertasse ou mais se aproximasse do box. Iniciado o jogo, cada um voltava a tentar embocar sua bola. As bolas iam-se acumulando dentro o círculo. Aquele que primeiro embocasse a sua passava a estecar a dos outros para expulsá-las do círculo. Quando conseguia expulsar a bola adversária do círculo, esta passava a ser sua. Quando não conseguia expulsar, perdia a vez e o segundo jogador reiniciava rotina.

Espeto – O espeto era feito de uma vara de ferro de 3/8" de aproximadamente 20 cm e com uma ponta afiada. O objetivo era cobrir uma distância pré-estabelecida em trajeto de ida e volta. O jogo era feito em solo duro e era iniciado pelo primeiro sorteado. Este tinha que atirar o espeto ao chão, cravando-o. Se cravasse, tomava o espeto e novamente o atirava. Cravando, traçava uma linha ligando esta marca à anterior e prosseguia até errar. Quando errava o adversário iniciava sua jogada na tentativa de cercar a trajetória do outro, de maneira a impedir sua progressão. No erro do segundo jogador, o primeiro tinha que sair do cerco feito pelo segundo para depois prosseguir. O que dificultava a saída do cerco era que só podiam ser feitas linhas retas ligando as marcas. A disputa entre dois sujeitos exímios podia levar um tempão e fazer verdadeiros labirintos. Aquele que conseguisse voltar primeiro ao ponto de partida era o vitorioso.

Caixeta – No centro de um círculo de aproximadamente 50 cm de diâmetro colocava-se uma caixa de fósforos em pé. Sobre ela eram colocadas as apostas, geralmente moedas de R$200 (duzentos réis). De uma distância de 10 passos os jogadores, atirando por ordem de sorteio, deviam acertar a caixa de fósforos e joga-la fora do círculo, ficando com as moedas que não saíssem do limite da circunferência. As moedas usadas para serem atiradas contra a caixa de fósforos eram os quatrocentões. Raras foram as vezes que tomei cascudos de meu pai, e quando isso acontecia, sou obrigado a reconhecer,os cascudos eram justificados, mas se ele me pegasse jogando caixeta seria surra na certa. Aquilo, pra ele, era jogo de azar.

Arco – Era necessário fuçar nos ferros-velhos pra conseguir um aro, fosse ele de bicicleta ou de velocípede. O arco era feito de um pedaço de arame grosso galvanizado ou de ferro de 3/8. A brincadeira consistia em correr manobrando o aro com o arco. Os mais hábeis faziam malabarismos e os mais velozes faziam o aro cantar pelo atrito com o arco. A atenção para com o brinquedo desviava a atenção com o caminho e, como andávamos descalços, eram freqüentes as topadas feias.