1946: um ano em São Paulo

Meu pai, engenheiro agrônomo, administrava fazendas no interior. Como era sempre transferido, vivíamos saltando de cidade para cidade, como uma tribo de ciganos.

Em 1946, recebeu um convite para trabalhar no venerando Instituto Biológico, na capital. E assim, aquilo que vivenciávamos esporadicamente, a visita à grande cidade, tornou-se uma experiência mais duradoura.

Antes, costumávamos vir pelo Natal, pois o grande Natal da família Simões era realizado na casa de minha tia Zilda, na Rua Albuquerque Lins, bem defronte ao Teatro São Pedro. Afinal, era ali que morava minha avó, a severíssima Dona Sebastiana, que criara doze filhos, dentre eles minha mãe, e que no Natal era visitada por quase todos eles, mais netos e outros parentes.

Armava-se a grande árvore, da qual me lembro até hoje do perfume de pinheiro, e desencaixotavam-se grandes bolas coloridas de vidrilho, de variadas formas. Completava-se tudo isto com cordões de algodão e uma estrela no topo.

Agora, mudávamo-nos novamente, e para São Paulo. Buscamos um ponto bem conveniente: uma pensão familiar na Rua Vitorino Carmilo. Um quarteirão quase só de simpáticos sobrados, que subsistem até hoje, lembrando uma ruazinha londrina. Ali, estávamos a duas quadras de minha tia e bem em frente ao Liceu Eduardo Prado, fato importante para mim que estava entrando na idade escolar. Todas as manhãs passava o pastor, com suas cabras, anunciando seu leite, com chocalhos.

Para meu irmão e eu, ir ao centro era algo deslumbrante. Ao contrário de hoje, a cidade tinha, realmente, um centro, para onde tudo convergia. Para ser mais purista, tinha dois: o “velho”, do lado do Pátio do Colégio, onde fora fundada, e o “novo”, do outro lado do Anhangabaú. Era impensável ir a São Paulo e não comparecer ao Centro, ou à "cidade", como se dizia.

As melhores lojas, confeitarias, "leiterias", hotéis, concentravam-se ali.
Na Praça do Patriarca, lembro-me da casa São Nicolau, no Ed. Lutécia, onde, no Natal, surgia na vitrine um espantoso Papai Noel mecânico, acenando para o povo da boleia de seu trenó. Coisa que, hoje em dia, se encontra às dúzias em qualquer esquina da 25 de Março, mas era uma sensação na época.

Depois embarafustávamo-nos pela Rua Direita. Logo a sua entrada, a Galeria Cruzeiro, com a finíssima Casa Alemã. Mais adiante, a Tecelagem Francesa, com carneirinhos de pura lã na vitrine; as enormes e surpreendentes Lojas Americanas, com uma infinidade de coisas, inclusive sua drugstore que, creio, foi a primeira lanchonete do gênero, com seus sanduíches e sorvetes.

Um cine, o Alhambra, onde nunca entrei. A Casa Sloper e, parada obrigatória, o imponente Bar Viaduto, onde nosso pai não dispensava um bom chope, acompanhado de maravilhosas empadas. Tudo num ambiente solene – parecia um templo, com belos vitrais art-déco.

Se entrávamos pela São Bento, chamava-me a atenção, na esquina, a Casa Fretin, com seus misteriosos e amedrontadores instrumentos cirúrgicos. Mais para baixo, a Botica ao Veado de Ouro, com a majestosa estátua dourada do mesmo na fachada. Quase no Largo de São Bento, a Leiteria Pereira, com saborosos leites batidos com iogurte. Subindo, após a Praça do Patriarca, outra leiteria, a Campo Belo, onde tomei minha primeira Coca-Cola. Isto jamais se esquece, e eu não esqueci: achei horrível! Havia ainda a Casa Aimoré, com suas latas de biscoitos estampadas em pirogravura, e, na esquina oposta da José Bonifácio, uma refinada queijaria. Nunca eu vira antes algo assim: um Emmenthal, grande como uma roda de carroça.

Entrando pela José Bonifácio, a Selaria Droghetti, onde, como num bang-bang, podia-se montar num cavalo todo ajaezado. Creio que era empalhado, e hoje em dia não acharia nada atraente, ou mesmo repulsivo. Bom, isto era apenas um lado do centro. D'outra feita, atacaremos pela banda da Xavier de Toledo, também super interessante.

O Biológico, onde nosso pai nos levou algumas vezes era, e ainda é, solene e impressionante. Em sua vasta biblioteca consultávamos enormes livros com estranhas fotos: gorilas gigantes, baleias, narvais… Do alto de suas torres, com seteiras, avistava-se o imenso descampado onde um dia seria o Parque do Ibirapuera. Nos fundos, havia um terreno arborizado, povoado de macacos, que dali não saíam graças a uma cerca eletrificada.

Chegava o fim do ano e eu passei com distinção, ganhando um livro com dedicatória da professora: "ao Luiz, bom aluno". Pegado ao colégio havia um posto de saúde, onde as crianças eram vacinadas, e tomavam "banhos de luz" ultravioleta, outro costume médico da época.

Meu pai não havia se adaptado ao serviço no Biológico. Era arrumar as malas e, mais uma vez, levantar acampamento. Retornaríamos a Campinas, sede do Instituto de Sericicultura. Ali ficaríamos mais dois anos e depois… Mas isto já é outra história…