Zequinha da Vila, baixa estatura, magro, cabelo de Elvis e físico de Bruce Lee. Sempre com o pente no shorts, pois tinha o hábito de retocar a bela cabeleira com freqüência. Tinha uma cadência no caminhar que era inconfundível.
Zequinha era bom, bom em tudo, ninguém jogava melhor que ele, fazia um drible que cegava a todos, velocidade espantosa com a bola no pé. Nadava tão velozmente que se assemelhava a Johnny Weissmuller, e a descaída na pipa poderia ser comparada a um foguete. Quando Zequinha botava sua pipa no ar, cada um baixava a sua. Sem contar que, se era cercado por cinco numa briga, não ficava um de pé, exceto ele. Zequinha era um verdadeiro talento anônimo. Que inveja de Zequinha! Era bom demais. Me perguntava, por que a natureza deu tudo a ele? Zequinha era amigo, mágico, respeitado e nos protegia da turma da outra rua, todos crianças. Não tinha família, morava com duas senhoras bem velhinhas que eram suas tias. Nossas mães não gostavam muito de Zequinha, pois já fumava. Mas era nosso ídolo.
Uma vez fomos fazer uma trilha num matagal, num lugar que hoje não saberia localizar, na Vila Carrão. Lembro que num determinado trecho comecei a chorar porque tinha um rio e sabia que não atravessaria. A turma começou a me xingar dizendo que era por isso que não queria que eu fosse, por ser pequeno, medroso, e ainda com o apelido de "Tarzan Minhoca". Zequinha que já estava do outro lado,atravessou de volta,colocou-me nas costas e lá fomos nós. Que herói! Fiz a travessia, olhando bem de cima, com toda a segurança, a água por mim tão temida. Este foi um episódio de Zequinha que ficou gravado na minha mente de criança.
O tempo passou, veio o futuro, muitas e muitas décadas depois, não há muito tempo, reconheci uma figura na Celso Garcia pela típica cadência ao caminhar. Aproximei-me e perguntei se não era o Zequinha. Ele, com o olhar desconfiado, perguntou-me quem eu era, ao mesmo tempo que me examinava. Franzino, já sem cabelo e muito velhinho, com uma aparência bem decadente, resultado do impiedoso tempo, olhava para cima, pois agora batia abaixo do meu ombro. Disse-lhe meu nome que ele lembrava, porém não associava à pessoa a sua frente. Lembrei-o de algumas passagens da infância que ele achou interessantes. Trocamos mais algumas palavras e ele partiu.
Não cheguei a dizer-lhe que era meu ídolo e que sempre admirei sua coragem. Fiquei no vazio da calçada contemplando aquela figura esquálida desaparecendo no meio da multidão, levando consigo um império heróico de uma infância perdida hoje em mundos desconhecidos.
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