Quando vovô deixou essa nossa dimensão em 1989, aos 85 anos na cidade de São José do Rio Preto, pudemos sentir o grande vazio de uma personalidade cativante.
Vovô ainda dirigia, andava de bicicleta e participava dos churrascos nos fins de semana junto com a família Pandim, nossa velha conhecida. Nós, os moleques, íamos para participar do "rachão" que era a festa da semana para todos.
Nos dias que seguiram, a família reunida recordou tudo o que pode, e reviu histórias e fotos. Alguns escolhiam algumas fotos para levar de recordação, e meu primo Luiz Roberto, o Beto, chamou a atenção sobre a grande quantidade de ferramentas e o que fazer com aquilo tudo.
Dando uma olhada nas ferramentas, tive a surpresa de rever os materiais de sapataria, tais como: pé-de-ferro, cortadores, lixas e martelos. Obviamente recordamos o tempo em que vovô havia trabalhado em seu ofício em São Paulo, assim como numa loja de calçados no centro, perto da Faculdade de Direito.
Enquanto ficamos observando os materiais, começamos a recordar de histórias de vovô na loja de calçados, no atendimento aos clientes. A loja comercializava sapatos masculinos e femininos e a melhor história era nas vendas às madames.
Vovô, com seu jeito muito sério de contar os episódios, dizia taxativo: "Essa mulherada não tem nenhuma classe mesmo". Ao perguntarmos a razão por trás da frase, ele contava, sem permitir o menor sorriso: “Quando estou deixando as clientes experimentar os calçados, elas comentam sem cuidado algum… ‘Seu Idônio, esse par aqui está me pegando na frente e aquele outro está me ralando atrás’…". O duplo sentido da frase nos fazia rolar de rir, mas ele, com sua fleuma, se mantinha impecável, o que fazia um estrago maior nos atentos ouvintes. Ele não ria de seus casos e isso aumentava a graça.
Outra lembrança era de que, na correria dos dias de criança, não nos lembrávamos de utilizar a calçadeira na hora de colocar os sapatos e aí vinha a bronca do especialista: "Vai estragar o contra-forte, moleque!".
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