Vou voltar com mais tempo

Os três vieram de Vitória para uma semana de treinamento na sede da empresa.<br>No chope de despedida da sexta-feira, reclamaram da falta de tempo para conhecer a cidade e como só retornariam para casa no final da tarde de sábado, nos pediram dicas para aproveitar o dia.<br><br>Choveram sugestões para visita a pontos turísticos, museus e passeios, mas pela lista de compras que eles queriam fazer (brinquedos, tecidos, roupas, material de pesca, etc…) recomendei antes uma passada pela região da Rua 25 de Março, para depois fazer uma esticada até outro local.<br><br>Acabaram concordando comigo e como não conheciam a cidade, não tive como deixar de atender ao pedido para acompanhá-los, principalmente porque quem mais insistiu nisso foi o meu gerente.<br><br>Já no sábado, como a temperatura estava agradável, ao invés da estação São Bento do metrô, saltamos na Sé, aproveitando para uma rápida visita à Catedral e Pátio do Colégio.<br>Eles estavam animados, mas quando eu falei em passar pelo Mercadão da Cantareira antes da peregrinação pelas lojas, foi a maior chiadeira:<br> -“Assim não vai dar tempo de fazer minhas compras!"<br>-“Supermercado tem em Vitória…"<br>- "Eu não quero comprar banana".<br><br>Nem dei bola, já que eu não estava ali por minha vontade, queria pelo menos aproveitar o passeio.<br><br>Entramos no Mercadão com eles ainda um pouco contrariados, mas o comportamento foi mudando à medida que caminhávamos pelo corredor central: Começaram a achar interessante…foram gostando…se entusiasmando…até ficarem deslumbrados e tomados por uma euforia quase infantil (calculo mais ou menos uns 20 passos para essa transformação). Foi até engraçado.<br><br>Depois foi “canseira danada” acompanhar e manter juntas aquelas três "crianças alucinadas" (dois homens e uma mulher na faixa dos 40 anos de idade) que corriam para todos os lados tirando fotos e mais fotos, bombardeavam os vendedores com perguntas, experimentavam de tudo e compravam os mais variados produtos.<br><br>O resultado daquela maratona foi que em pouco mais de 1h cada um já tinha tantos volumes para carregar (contando com a minha ajuda) que tivemos que voltar para o hotel, comprando apenas alguns brinquedos pelo caminho. E só não estávamos levando também paleta de porco e linguiça fresca porque não havia caixa de isopor disponível (que sorte).<br><br>Na saída do Mercadão os comentários já eram diferentes:<br>- "Adorei!"<br>-"Esse lugar é uma maravilha!"<br> -"Vou voltar com mais tempo!"<br><br>Pelo horário e ainda com as bagagens para arrumar, desistiram de voltar para uma nova rodada de compras (que sorte, de novo).<br><br>Eles já queriam almoçar no hotel, que ficava na Avenida São Luis, quando eu insisti para irmos ao Mancini da Rua Avanhandava, foi uma nova chiadeira: <br>-Já andei muito hoje!"<br>- "Aqui o garçom já é nosso amigo"<br>-"Sair nesse sol só para almoçar?"<br><br>Nem dei bola de novo, porque o almoço seria conta da empresa, mas quem pagaria seria eu.<br>Foi a mesma coisa quando chegamos à Esquina de Martins Fontes com a Avanhandava, o desânimo se transformando em euforia.<br><br>Dessa vez, além da canseira, fiquei até um pouco envergonhado por ter que tirar fotos das três "crianças alucinadas" fazendo aquelas poses típicas de turistas, junto à fonte e nos jardins da rua, depois abraçados nas esculturas de vaca da Cow Parade e ainda dentro do restaurante, exigindo que eu pegasse nas fotos os detalhes da decoração do ambiente, do Buffet de antepastos e até dos pratos (sorte foi não ter encontrado nenhum conhecido).<br><br>Já estávamos nos despedindo na porta do hotel, depois de voltarmos do almoço, quando começou uma animada roda de samba no jardim da Praça Dom José Gaspar e como eles ainda tinham quase 2h antes da ida para o aeroporto, sugeri encerrar nosso tour com uma “saideira” no Paribar (dessa vez ninguém reclamou).<br><br>Conseguimos uma mesa na varanda e durante as várias rodadas de chope (e novas sessões de foto), cansei de ouvir: <br>-”Adorei!"<br>-"Vou voltar com mais tempo…"<br><br><br>E-mail: [email protected]