Volte amanhã

Início de 1974 – Governo Médici, o governo duro e repressivo dos Anos de Chumbo. A pretexto de combater a luta armada, a censura aos órgãos de comunicação aumenta, professores, músicos, artistas e escritores são investigados e presos, alguns até mesmo exilados.

Nesse cenário, um grupo de educadores participantes de uma experiência democrática de educação pública foi preso em São Paulo, suspeito de subversão, detido no seu local de trabalho para "averiguações".

Somente um dos participantes do grupo não foi detido, por não se encontrar no local, tendo sido intensamente procurado por toda São Paulo, por agentes do DEOPS que visitaram todos os lugares onde poderia estar. Não foi localizado e escapou por sorte da prisão naquele dia…

Orientado por conhecido advogado de presos políticos, levado por alguns colegas que faziam sua escolta, ele se apresentou voluntariamente no final da tarde do dia seguinte na sede do DEOPS, no Largo General Osório.

Depois de identificar-se junto ao policial de plantão, dizendo ter vindo se apresentar, já que era procurado – afinal, era o perigoso subversivo que estava sendo caçado. Ouviu como resposta: "Olha, moço, volte amanhã porque hoje o expediente já terminou.".

Seguindo o conselho do plantonista, apavorado já que sua rede de proteção não mais existia, internou-se na casa de um conhecido, passou a noite sem dormir, e no dia seguinte se apresentou de manhã no DEOPS, sendo, então, devidamente preso durante o horário do expediente.

Não é piada, a maioria dos participantes do episódio está aí para confirmar. A burocracia vigente até hoje conseguiu enquadrar até mesmo as supostas questões da segurança nacional dos anos 70.

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