Não faz muito tempo. Acredito que muitos são ainda do tempo que se faziam visitas uns aos outros aqui em São Paulo. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho, porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todos a pé. Geralmente, à noite. Ninguém avisava nada: o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um. E era assim:<br><br>1) “Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre”.<br>E o garoto apertava a mão de meu pai, de minha mãe, a minha mão e as mãos de minhas irmãs.<br><br>2) “Mas vamos nos assentar, gente! Que surpresa agradável!”.<br>A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e minhas irmãs ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e observando a casa do tal compadre.<br>Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… Casa singela e acolhedora.<br><br>3) E alguém dizia lá do fundo: “Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa!”.<br>Tratava-se de uma viagem gastronômica. O café era apenas uma parte… Pães, bolos, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite; tudo sobre a mesa.<br>Juntava-se todos e as piadas pipocavam, juntamente com as risadas.<br>Pra que televisão? Pra que rua? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço de esperança. Tudo com simplicidade e alegria.<br><br>Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina; ainda nos acenávamos e voltávamos para casa. Caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura.<br><br>Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.<br><br>O tempo passou e tivemos bons professores: televisão, vídeo, DVD, internet… Cada um na sua e ninguém na de ninguém.<br><br>Não se recebe mais visitas como aquelas em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa. “Vamos marcar uma saída…”. Ninguém quer entrar mais?!<br><br>Assim as casas vão transformando-se em túmulos, cemitérios urbanos, onde perambulam zumbis e fantasmas em casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café com pães, bolos e broas.<br><br>E-mail: [email protected]