Alice Ferrari, depois de casada com Vitório, acrescentou Alexandre ao seu nome, e sempre morou no mesmo lugar desde que eu usava calças curtas, à Rua Teixeira de Melo no Tatuapé.
O passeio até lá era longo e o curioso é que a linha férrea passava a 100 metros dali; estes trilhos hoje são utilizados pelo sistema de metrô. O casal era muito parecido, ambos bem humorados e donos de sorrisos cativantes. Recebiam muito bem e sempre preparavam de antemão um lanche aos visitantes.
Esta história só está sendo contada pelo fenômeno do projeto SPMC, onde uma história puxa outra; no caso, a da Sra. Vera Moratta, “Caso do caderno” de 5 de abril de 13 e de José Aureliano de Oliveira, “Tia Nilza” de 29 de abril de 2013.
Tio Vitório trabalhava no Banco Nacional na agência da Paulista no Conjunto Nacional. Seu espetacular sorriso o tornou garoto-propaganda do Banco e o comercial passava em horário nobre na TV. Ele aparecia atendendo um cliente com o seu largo sorriso, filmada de fora do banco, pela janela em frente ao banco. Tia Alice era alta, elegante e magra com olhos azuis lindíssimos e além da simpatia e dos sorrisos tinha uma gargalhada contagiante.
Por volta de 1960, surgiu uma novidade, o tio comprou uma perua Vemaguete que tinha o que chamamos hoje de “porta-suicida”, ou seja, abria ao contrário. Com satisfação sentei no banco do motorista e observei o bonito painel, onde estavam números enigmáticos, três igual a seis. Duas décadas depois é que descobri o significado, era um motor de três cilindros que tinha potência de seis. Maravilha da engenharia alemã, o símbolo DKW, ou Das Kleine Wundar, traduzindo “A pequena maravilha”.
Os tios na realidade eram de minha mãe e, portanto meus tios-avós. Tinham dois filhos, Humberto Augusto e José Eduardo. O primeiro vivia em contato com a música e arriscou uma carreira que chegou até o show de domingo da TVS do Sílvio Santos, “Domingo com os galãs”. Em sua casa volta e meia se encontravam músicos e soube que estiveram por lá o Manito e outros componentes do conjunto chamado, “The Clevers”, que depois virou “Os Incríveis”.
Na época do incêndio da Pirani-Andraus em fevereiro de 1972, tomamos um grande susto, pois os dois primos correram enorme risco, estavam então estabelecidos em um escritório no prédio que ficava nos fundos do Andraus, e que também ficou destruído. Contudo, saíram de lá sem problemas.
Uma casa com muita harmonia e calor humano. Para nós crianças, era uma visita que podia durar um dia inteiro ou muito mais. Com um tratamento tão bom, nunca recebíamos bem a ordem de partir. Deixávamos a casa da tia muito contrariados. A última visita que fiz foi em 17 de novembro de 2007, juntamente com minhas tias Lady e Dalva. Ela já contava com 87 anos, mas a vitalidade era a mesma, contou histórias da terra natal, Bariri, e me apresentou o livro, "Relembrando" de seu irmão Hugo Ferrari, odontólogo daquela cidade. Mostrou fotos antigas de lá e também de sua viagem de lua de mel. Falou emocionada sobre a falta do cônjuge querido, já há muitos anos falecido. E o mais importante, cantamos todos juntos algumas velhas canções, como, “Eu sonhei que tu estavas tão linda” de Francisco Mattoso e Lamartine Babo. Não tenho outro adjetivo para esta última visita, inesquecível. Como também foi o casal Vitório e Alice.