Virada Cultural… eu fui

"Andando pelas ruas do centro, atravessando o Viaduto do Chá, eis que me vejo cercado, trombadinhas querendo me assaltar, me assaltar, me assaltar, me assaltar".

Assim entoa o Joelho de Porco em "São Paulo By Day", sua música mais conhecida. A banda paulistana fez muito sucesso no final dos anos 70, e a canção citada acima integrou o set list do show dos caras na 5ª edição da Virada Cultural.

O grupo se apresentou no Palco Rock, montado na Praça da República, que foi apenas um dos inúmeros espaços a tomar conta do centro entre os dias 2 e 3 de maio. Foram 24 horas ininterruptas de apresentações circenses, performances de dança e muitos shows musicais.

Embora a Virada Cultural aconteça em toda a cidade, distribuída por CEUs, SESCs e espaços culturais, é no centro de São Paulo que a coisa pega fogo.

Para não ficar de fora, tratei logo de conseguir um mapa que trazia todas as atrações e principais artistas. Mas é impossível acompanhar tudo, então o negócio é escolher uma praça e se mandar para lá.

Como adoro cinema, optei em conferir primeiro as sessões no Cine Dom José, que iria exibir exclusivamente filmes abordando zumbis, os mortos-vivos. Cheguei pouco antes da primeira sessão. O Dom José tradicionalmente exibe filmes pornôs, mas desta vez estava lotado por fãs do gênero terror. Ou melhor, terrir, já que o longa de abertura, “Zombie, A Volta dos Mortos-Vivos”, tinha efeitos especiais tão toscos que arrancava mais risos do que sustos. A cada cena bizarra e escatológica, o público, formado na maioria por jovens, caía na gargalhada. Simplesmente hilário.

Acabou o filme e foi aquele entra e sai. Uns queriam ficar para a segunda sessão e outros se mandar para conferir os shows. Fiquei, pois estava a fim de ver o clássico O Zumbi, com o mestre do terror Boris Karloff. A película é antiga demais, acho que é de 1932, então havia uma série de cortes, mas que não comprometeram a exibição.

Terminado o filme, me mandei para o Palco Rock, dando tempo de conferir o finalzinho da apresentação do Som Nosso de Cada Dia, outra banda clássica que aglutina rock progressivo e elementos de música brasileira.

Em grandes aglomerações, principalmente shows de rock, se vê de tudo. Um monte de cabeludos, vendedores de cerveja e vinho, outros que vendiam tiaras com chifres luminosos, grupos de punks, bêbados e cigarros de maconha. Em tempos de gripe suína houve até aqueles que estavam usando máscaras. Não sei se por medo ou para aparecer.

Finalmente, depois de trinta minutos de espera, o Joelho de Porco subiu ao palco, fizeram um set curto, mas que animou a galera. O punk-rock escrachado dos caras continua o mesmo. São muito melhores que a maioria das bandas de hoje.

Como estava ficando tarde e tinha que dar plantão no domingo, esperei o Joelho terminar o show para dar uma dispersada no público. Contornei a Praça da República e conferi mais algumas cenas bizarras. Aqui um cara vomitava todo o álcool ingerido. Ali um casal trincando de bêbado tentava se amparar um no outro. Acabaram caindo juntos.

Entrei na Vinte e Quatro de Maio em direção da Praça Ramos. Uma gigantesca multidão se acotovelava para o show do Tom Zé, que iria começar em seguida, no Teatro Municipal.

Contornei o teatro e aí começou uma performance de dança com um grupo de jovens bailarinos. Movimentos coreografados que tinham graça e beleza. Então apareceram três engraçadinhos que resolveram atrapalhar os dançarinos entrando no meio deles com as calças arriadas, mostrando as cuecas para o público. Ninguém achou graça e os babacas saíram fora.

Atravessei o Viaduto do Chá esbarrando em milhares de pessoas. Para onde se olhasse tinha alguma coisa acontecendo. O prédio da prefeitura serviu de tela para projeções digitais. No Anhangabaú foi montado o palco da dança. Dois corajosos artistas atravessaram de bicicleta do prédio da prefeitura ao Shopping Light sustentados apenas em um cabo de aço. Foi incrível. Centenas de pessoas curtindo juntas a noite paulistana.

Mas infelizmente nem tudo é alegria. Li na Internet que houve problemas com os banheiros químicos disponibilizados. Não foram suficientes para a multidão de quatro milhões de pessoas que compareceu a esta Virada. Isso sem contar as toneladas de lixo espalhadas pelas ruas. Mas nada que atrapalhasse o brilho da festa. Afinal não existe nada 100% perfeito.

Só posso dizer que a Virada Cultural já se tornou parte do calendário de São Paulo. A população e a cidade merecem este evento, que, tomara, perdure por muitos anos. Parabéns São Paulo.

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