Vila Sônia e Avenida Francisco Morato: os "marcos de divisas" entre São Paulo e Santo Amaro

Uma única imagem que possuía daquele lugar era de uma criança indo visitar seus tios, Ivo, irmão de minha mãe Elza, e de Carmem sua esposa, lá no Bairro Ferreira, ainda uma mata cortada por caminhos de terra e ruelas estreitas. Saíamos sempre pela manhã, bem cedinho, pela Estrada do Campo Limpo, transitada por poucos veículos, cruzando com carroças de sítios, chegava-se na região da Vila Sônia, entrando na atual Avenida Professor Francisco Morato. Uma "pedra" bem feita estava sempre no caminho, era um "monumento grande" aos meus olhos; meu pai, Ernesto, falava que era "marco de divisa" de São Paulo com Santo Amaro, mas minha mentalidade não era suficiente para entender seu significado. Ele explicava que "aquilo" dividia um lugar de outro, e desse modo ficou registrado e arquivado na memória, o computador mais maravilhoso do mundo, em uma "pasta" esquecida no arquivo da mente.

Folheando há tempos a "Revista Interlagos", publicada na região de Santo Amaro na década de 1950, havia uma imagem semelhante daquele "marco de divisa" que foi um dia referência na Vila Sônia, colocada por algum Marquês do Império dividindo São Paulo com Santo Amaro. O que aparecia na revista era do Córrego da Traição, ribeirão concretado pelo "progresso" originando a Avenida Bandeirantes, e este marco possuía o número 4.

Um filme aparecia revivido na tela do "monitor invisível" perguntando se "aquele marco" que conheci quando criança ainda existia? Perguntei para várias pessoas mais velhas e eles diziam que "não existia mais esse tipo de coisa por São Paulo". Essa resposta esfriou meu interesse, mas como nos movimentamos pelos "desejos", esta procura "arqueológica" seria ideal para uma expedição.
Na história humana atrela-se tempo e espaço; pelo primeiro "estou passando", sendo que o espaço foi sendo transformado ao meu redor e muitas coisas não existem mais como o original, pois "tudo que é sólido desmancha no ar" e novos modelos foram sendo implantados, com inovações do cenário em nossa volta.

A cidade de São Paulo das construções do "sopapo" e "taipa de pilão" passou para a alvenaria e depois ao concreto e no lugar das casas de moradias planificadas no espaço horizontal foram aos poucos subindo aos céus e a cidade também foi verticalizando-se com as famílias sendo encaixotadas em vidas privadas, reclusas, dando-se para isso o nome de "progresso", termo que se cuidem ao expô-lo, pois nem sempre inovação é o modelo ideal para "progredir", somente feita através do tempo histórico, "reiniciando-se" a "derrubada" da cidade novamente, para "arrumá-la", num ciclo constante de "insucessos sucedidos" em busca de "inovação e enobrecimento" do local.

Fiz um "planejamento" e comecei a caminhar pela Avenida Professor Francisco Morato, próximo da expansão do metrô, estação Vila Sônia, caminhando no sentido do Taboão da Serra, para "redescobrir" o marco de divisa entre São Paulo e Santo Amaro, embora não soubesse ao certo se o mesmo ainda existia. A saga era incerta, mas o dia ensolarado "era para vadiar"!
Estava "armado" com uma máquina fotográfica, uma espátula e folhas de lixa, pois "alguma coisa falava" que se o marco ainda estivesse no lugar, estaria degradado, pois os tombamentos, que deveriam ser de preservação em São Paulo, estão em mau estado, e muitos "tombados" ao chão.

Caminhando, parando, olhando, observando e já quase desistindo, de repente, encostado ao muro, havia um obstáculo que estrangulava a calçada; ei-lo lá! Bem a diante, a poucos metros se acortinava o "procurado", quando não se acreditava mais que existisse um marco de divisas entre municípios paulistas. Era uma estrutura retangular terminada em meio círculo de uns dois metros de altura, repleto de anúncios colados naquele "corpo imóvel". Parecia haver incisões em baixo relevo, mas precisava ser "descoberto" daquela sujeira que o "cobria". Começando através de uma imaginação seguida de transpiração com a raspagem dos anúncios colados e com lixamento constante por um pouco mais de duas horas e por fim apareceram as indicações em baixo relevo indicando Pinheiros, no Município de São Paulo com M'Boy, atual Embu das Artes, e referência a Itapecerica, do lado do Município de Santo Amaro. Fotografei as imagens do "marco de divisa nº. 5" que pode ser visto ainda, por quem queira andar por "São Paulo Minha Cidade" na Avenida Professor Francisco Morato,um remanescente, inerte e silencioso marco da história de São Paulo.

Nota complementar: pode ser visto outro "marco de divisa" menor na Vila Mariana, na esquina da França Pinto com Domingos de Moraes.

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