No final da década de 1940, minha família saiu do interior de São Paulo (São Carlos) para tentar a vida na Capital. Fomos morar na Vila Santa Catarina. Vocês podem imaginar o que era a Vila Santa Catarina naquela época, um lugar ermo, ruas de terra, uma (pequenina) casa aqui, outra (menor ainda) acolá, separadas por, pelo menos, uns dois quilômetros. Mas foi lá, na casinha de alvenaria, sem reboco, sem forro, cômodo e cozinha, que fomos morar. Obrigado, meu Deus, por aquele lar maravilhoso. Meu pai logo conseguiu emprego de motorista de ônibus na CMTC. Um emprego, diga-se, muito cobiçado na época. Após vários, difíceis e rigorosos exames, ele passou. Parece-me que quando da avaliação médica, não querendo arriscar, o material para exames de urina e de fezes, ele levou dos filhos, pequenos e, por isso mesmo, saudáveis. Enfim, ele venceu esta batalha e conseguiu o emprego. Eu era muito pequeno, mas me lembro das dificuldades da minha mãe em fazer chegar ao meu pai, na hora certa, o almoço ou o jantar, não digo em marmitas, pois a comida era colocada num prato fundo e coberta com outro e amarrados num pano de prato, que, às vezes, ficava manchado de feijão. Pois bem, minha mãe andava até a Cidade Adhemar para entregar ao primeiro ônibus que passasse e este ia entregando para outro até chegar nas mãos do meu pai.A comida, com certeza, chegava fria, mas papai a esquentava no motor do ônibus. Outra preocupação da mamãe era com o horário; quando estava no turno do dia, papai saía de casa de madrugada, quando estava no turno da noite, chegava à casa de madrugada. Mas, graças a Deus, os tempos eram outros e nada, nunca, aconteceu com papai ou conosco mesmo, abrigados naquela casinha, cujas portas e janelas eram fechadas com tramelas. Tempos depois, ele cercou o terreno com arame farpado e nos sentimos mais seguros. Não tínhamos luz elétrica, nem água encanada, nem esgoto. Usávamos lamparinas e depois um lampião a querosene, nem ligávamos, afinal, íamos dormir cedo. Água, a pegávamos no poço. Tomávamos banhos, rapidíssimos, num balde com chuveiro no fundo, suspenso por uma corda. Quando chovia ou ventava, respingava e sentíamos o vento através das frestas do telhado, era um desconforto; depois papai forrou, ele mesmo, a casa com cedrinho. Era a casa mais linda do mundo! Ia-se vivendo. Não tínhamos idades escolares, de modo que brincávamos muito por aquelas ruas poeirentas de terra avermelhada, por aqueles matos. Extasiados, víamos os redemoinhos que os ventos faziam na poeira da rua. Fazíamos telefones com duas latinhas de molho de tomate amarrados com linha de costura e conversávamos na distância que a linha permitia. Estas linhas depois serviam para empinar papagaios ou capuchetas (feito com jornal). Brincávamos com uma bola feita de meia velha e recheada com jornais velhos. Bolinha de gude, pião, boizinhos feitos com chuchus e palitos de fósforo ( as patas, os chifres e o rabo), mamãe tinha uma plantação deles e ficava brava quando pegávamos os chuchus para brincar. Íamos vivendo.
Lembro-me que, na época do Natal, a CMTC oferecia aos filhos dos funcionários uma festa de confraternização. Era num lugar amplo. Afluíam muitas pessoas, adultos e (principalmente) crianças, muitas crianças. Lógico, a CMTC tinha um número enorme de funcionários. Não lembro exatamente aonde eram feitas estas festas. Só sei que, durante aqueles anos que participávamos dela, uma coisa me chama atenção até hoje: nunca choveu no dia marcado. Olha que (as festas) eram em dezembro, um mês chuvoso e, as vezes, até frio. Mas, sempre foram dias claros, céu azul, sem qualquer nuvem, o sol brilhando forte e maravilhoso. Havia, como não poderia deixar de haver, o Papai Noel. Não sei se era um ou vários, provavelmente vários, vestidos com a mesma roupa, estavam em todos os lugares. Era a onipresença de Papai Noel. Corríamos para abraçá-lo e ganhar balas. Brincávamos muito. A única coisa que me intrigava, e me intriga até hoje, era o fato de que quando o Papai Noel distribuía os presentes, papai, combinando com mamãe para nos levar para outro lado da festa, recebia os presentes, desaparecia com eles e, depois já em casa, dizia que o Papai Noel queria entregar os presentes para nós no dia de Natal, ao lado da cama de cada um, em casa. Pois bem, em todos os dias 25 de dezembro, de manhã, ao acordarmos, o presente estava lá, ao lado de nossas camas. Papai Noel trouxera os presentes. Assim, fomos criados acreditando no Papai Noel, pois ele nunca falhou conosco. A bem da verdade, o Papai Noel continua não falhando. Ate hoje, nas manhãs do 25 de dezembro, ao lado de nossas camas, aparece um presente. Fiquei triste ao ouvir uma música de natal que dizia: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” e mais triste ainda ao ver que a grande maioria não é filho de Papai Noel.
Mesmo ali, naquele fim de mundo, havia um padeiro, que com sua carroça-baú, entregava, aliás, deixava, o pão e o leite, uma vez por semana, e voltava mais tarde para oferecer pães doces, cheirosos e gostosos, minha mãe de vez em quando comprava. Pagávamos o padeiro por mês. As compras do mês eram feitas na Casa Palma, e eram entregues em casa. Era uma festa. Tínhamos mantimentos! Lembro-me de um pequeno galinheiro, uma horta, um pequeno pomar e também uma plantação anual de milho, pequena, o suficiente para alguns gostosos curaus, bolos de milho verde e pamonhas.
Um dia, papai apareceu em casa com um rádio. Funcionava com umas baterias enormes e a antena, armada no quintal, mais parecia um varal. O bicho funcionava. Para economizar as baterias, era ligado só à noite, por no máximo duas horas. Quando papai estava em casa, ouvia-se notícias (A Voz do Brasil) e novelas, quando não, só novelas.
Em 1952 ou 1953, mudamos para o Jabaquara, Jardim Oriental, Rua Matuim. Via-se que o emprego de papai era bom e bem remunerado.
Hoje, decorrido mais de meio século, não tenho saudades da Vila Santa Catarina em si, tenho saudades do menino, daquele menino que não sonhava com nada, não desejava nada, a não ser acordar todas as manhãs e ver que seu pai, que chegara de madrugada, estava dormindo seguro e salvo, e a mãe, já na luta, passando o café cheiroso num bule de ágate azul e descascado e, logo, logo, estaria brincando com seus irmãos e desejoso de que o vento fizesse redemoinhos na rua de terra. Que admirava o forro feito com cedrinhos pelo próprio pai, seu herói. Ah! Menino, por que você se perdeu nas névoas da Vila Santa Catarina? Você era tão puro que, como Fernando Pessoa, corria e rolava pela relva, arrancava flores e depois as jogava, rindo alto, que de longe se ouvia. Você sorria de tudo, porque tudo era incrível, você sorria dos reis e dos que não eram reis e a única coisa de lhe chateava, era ouvir falar em guerras. Nas madrugadas de insônia, lá pelas horas medonhas, no escuro, procuro o menino, para propor-lhe uma troca, mas nunca consigo achá-lo. Com certeza, transformou-se em névoas e se confunde com o negror da noite! Mas, mesmo assim, ainda ouço a sua voz infantil:
“Atirei o pau no gato, to, to
Mas o gato, to, to, não morreu, reu, reu…”
“Passa, passa, passa, três vezes,
Na última que ficar, tem mulher e filhos,
Que não pode sustentar…”
“Na mão direita tem uma roseira,
Na mão direita tem uma roseira
Que dá flor na primavera
Que dá flor na primavera…”
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