É uma parada obrigatória.<br>Sempre que descemos a Avenida Bandeirantes em direção à Marginal Pinheiros, damos uma voltinha a mais e paramos na Rua Raja Gabaglia, na Vila Olímpia.<br>Ali, em frente ao 247, observando aquele pequeno sobrado que hoje é a filial ou franquia da uma ótica, passamos em revista o que um casal de jovens deslumbrados e enamorados viveu no inicio dessa vida a dois.<br>A casa era modesta, como era a Vila Olímpia da época. Um simples bairro dormitório onde pouco comercio existia. Uma vendinha ou um bar aqui, outros acolá, a padaria mais requintada na Cardoso de Melo e pouca coisa mais, a Gomes de Carvalho em paralelo, a pequena Tenerife, palcos dos primeiros passeios no quarteirão da nova vida a dois.<br>É verdade que existia a Cancoro, revenda VW, o deposito da Vilex, de um porte maior, mas prevaleciam as residências. O pão e o leite na vendinha em frente; na padaria do bairro um pão doce mais requintado; a farta cesta básica da mercearia da Groenlândia que meu pai mantinha, passeios simples no Butantã ou no Ibirapuera. Vez ou outra um piquenique em Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, terminando em Itu ou em Salto. Uma TV 17 polegadas em branco e preto sempre ligada no James West, Cannon e outros seriados.<br>Da janela do nosso quarto dava para ver quando o ônibus saía do ponto final e corríamos para pegá-lo. Na verdade tínhamos duas linhas, uma que ia até a Praça da Bandeira e outra um verdadeiro circular que ia até a antiga rodoviária. Esta linha era a mais concorrida enquanto a outra era a mais pacata.<br>Saíamos os dois para a jornada diária do trabalho, bem cedo. Ela descia em frente à Igreja da São Gabriel e eu seguia adiante até o centro da cidade. Cardoso de Melo, Ribeirão Claro, Fiandeiras, Clodomiro Amazonas, Tabapuã, Avenida São Gabriel, Avenida Nove de Julho e lá estávamos no Anhangabaú. Um rápido caminhar até a Boa Vista e, vamos ao trabalho. De outra parte, ela ia até a Vila Mariana, mais exatamente na Afonso Celso, arquivar plantas e registros na Hidroservice.<br>Na volta praticamente o mesmo caminho, trocando-se a Tabapuã pela Joaquim Floriano, para a quietude da Raja Gabaglia, no pequeno sobrado transformado numa imensa nave de sonhos e esperanças.<br>Na Cardoso de Melo entre a Raja Gabaglia e a Funchal, esta estreita e serena, não como a de hoje, existia uma favela e por um desentendimento qualquer eventualmente havia um corre-corre que tirava a normalidade do bairro. Mas serenados os ânimos tudo voltava à paz e ao silêncio. <br>Temos boas e tristes recordações desta favela. As boas são porque sempre nos demos bem e o pessoal que nela morava às vezes pedia algo e também me ajudava, especialmente a molecada que vibrava quando era para empurrar o Gordini, que sempre teimava em não pegar (abrindo um pequeno parêntesis: tudo que aprendi com guinchos, suas correntes, reboques, pisca-pisca de luzes, devo ao Gordini).<br>Uníamos o útil ao agradável, juntando assim a autêntica molecagem com a absoluta necessidade.<br>A triste recordação é que num belo dia, vimos os restos materiais da favela que tinha pegado fogo. Foram-se embora todos. Mudaram-se os pais, os filhos, mudou-se a molecada e eu resignado me curvei à triste realidade e vendi o Gordini, por absoluta falta de braços.<br>Mas a vida continua. O sobrado, com algumas alterações, permanece de pé. O atendente da loja sobe os degraus da escada que leva ao andar de cima de três em três degraus, sem qualquer problema. Nosso problema na época era que nosso filho, parceiro destes anos iniciais, a um descuido qualquer nosso, cismava em engatinhar subindo a escada e quase enfartávamos ao vê-lo na metade, com sua calça de veludo, saboreando a vitória de mais um degrau vencido.<br>Hoje, paramos e fingimos olhar a vitrine quando na verdade estamos flutuando casa adentro rememorando e saboreando a velha Raja Gabaglia 247, nosso minúsculo sobrado dos anos setenta, onde repito, deslumbrados e enamorados iniciamos uma eterna vida a dois, que depois seria a três, a quatro, a cinco, a seis, para voltarmos a ser a dois, novamente.<br>Cresceram os filhos, envelhecemos nós. E ante o inexorável relógio recordamos que éramos duas crianças adultas cuidando daquela criança, sonhando que ela um dia se transformaria, como, na verdade, se transformou, numa fortaleza adulta.<br>Se no intangível fica a lembrança dos sonhos e pesadelos, dos erros e acertos no primeiro lar, fisicamente ficam os dois pinheiros que nosso filho ganhou em seu primeiro emprego e que em seu nome plantamos na entrada de nossa casa, que como guardiões, abençoam-nos todas as vezes que saímos, para nos receberem agradecidos, todas as vezes que voltamos, demonstrando o que aquela criança adulta já faz, e seguramente fará quando formos inexoravelmente idosos crianças.<br>Sempre que descemos a Avenida Bandeirantes em direção à Marginal Pinheiros, damos uma voltinha a mais e paramos na Rua Raja Gabaglia, na Vila Olímpia.<br>É uma parada obrigatória.<br><br>e-mail do autor: [email protected]