Na mitologia grega, Olimpo era o local onde os Deuses moravam e desfrutavam de uma vida completamente diferente da dos mortais.
Pois bem, nossa Vila Olímpia, assim como nas narrativas gregas, também pode ser considerada um local de destaque e de extrema importância dos paulistanos, não só pela posição atual, mas também pela história.
Localizada na zona sul da capital paulistana, a Vila Olímpia nasceu cercada por quatro das principais vias de deslocamento: Avenida Santo Amaro, Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, Avenida Nações Unidas e Avenida dos Bandeirantes. Longe de ser um bairro jovem, como pensam aqueles que não conhecem seu enredo histórico, a Vila Olímpia surgiu no início do século XX como um aglomerado de chácaras formadas em sua maioria por portugueses e descendentes. As condições físicas da região levaram o local a ficar dividido em Alta Vila Olímpia (em direção à Avenida Santo Amaro) e Baixa Vila Olímpia (em direção à Avenida Nações Unidas).
A região da Alta Vila Olímpia foi povoada por diversas chácaras de floristas que trabalhavam para fornecer suas flores não só para os cemitérios da cidade, como também para as famílias mais abastadas que habitavam os bairros mais próximos.
“…Ainda me lembro, conforme meu pai de um amigo do meu pai José Rodrigues, o eletricista, contava, sobre seus amigos que eram proprietários de chácaras onde se cultivavam flores, como por exemplo o Antonio Florista, cuja chácara ficava na Rua Gomes de Carvalho, o senhor José do Firmo, um dos primeiro chacareiros florista da Vila Olímpia…”
A Vila Olímpia teve a separação de alta e baixa devido à parte de baixo estar associada às condições físicas da região, que se apresentava como um verdadeiro “brejo”.
Tal situação de “brejo” ocorria devido à cercania do bairro que tinha diversos córregos, como o antigo Córrego da Traição (onde hoje se localiza a Avenida dos Bandeirantes), o antigo córrego do Sapateiro (onde hoje está localizada a Avenida Juscelino Kubitschek), o próprio Rio Pinheiros e outros.
Em 1954, a Rua Coronel Camisão passou a chamar-se Rua Professor Vahia de Abreu, sendo que foi nessa rua, na casa de número 41, onde nasci e por lá vivi toda a minha infância, adolescência, até os meus 26 anos.
Na década de 50, a Vila Olímpia foi presenteada com sua primeira Igreja, Igreja do Divino Salvador, na Rua Casa do Ator.
A recordação da vida nessa rua em que morei, conforme acima narrado, bem como das ruas das imediações (paralelas e transversais), Avenida Santo Amaro até a Rua Nova Cidade, da Avenida dos Bandeirantes até a Avenida Juscelino Kubitschek, me leva a viajar no tempo, lembrar-me do senhor Juca (senhor José de Abreu) e de sua esposa Eulália, donos da padaria Samaro, a primeira padaria do bairro, do confeiteiro, senhor Valdomiro, e do padeiro, senhor Domingos, que me ensinaram a fazer doces e pães.
Nessa padaria, com o consentimento do senhor Juca, aprendi com o senhor Valdomiro também a fazer pizzas e por esse motivo posso dizer que fui um dos mais novos pizzaiolos do bairro, pois com meus poucos 10 ou 11 anos, lá estava, no final da tarde, início da noite, preparando belas pizzas de mozarela, que eram vendidas no balcão da lanchonete da padaria.
Recordo-me ainda do senhor Juca, que ficava horas e horas naquele cortador de frios, com muita dedicação e carinho, preparando diversas porções de 100 gramas.
E o que falar da dona Eulália, que nos presenteava com seus dotes fabricando o inesquecível bolo preto, bolo este que nunca faltava em nossas festas natalinas, os mesmos eram fabricados somente no mês de dezembro.
E o pão de centeio, ou pão preto, que atraía consumidores dos mais longínquos bairros.
Infelizmente o tempo passou, o senhor Juca muito cedo nos deixou, e a padaria nunca mais foi a mesma, sendo que sua ausência é apenas física, pois até hoje é presente em nosso coração.
Uma das primeiras lojas de materiais de construção do bairro, a Casa São Francisco, hoje instalada na Avenida Santo Amaro, cujo proprietário é o senhor Francisco Braz Filhos, meu tio, filho de um dos primeiros moradores do bairro, meu avô Francisco Braz e minha avó Carmem Braz, que por mais de 70 anos moraram na velha e boa casa azul e branco da Rua Dr. Cardoso de Melo, que até hoje lá resiste ao tempo, sempre bem conservada.
Loja essa, que por carinho de meu tio, acolheu-me com seus ensinamentos e a quem agradeço, pois aos 11 anos lá estava, trabalhando em sua loja, com muito orgulho e a quem devo muito nesta vida.
Nas minhas manhãs estudava na Escola Martin Francisco, na Vila Nova Conceição. Todo dia às 7 horas da manhã lá estava eu na casa do senhor Antonio, que morava no nº 60 da Rua Vahia de Abreu, um dos primeiros a morar no bairro, que dedicou sua vida à venda de carvão (por esse motivo era chamado de Antonio Carvoeiro) e depois como taxista, no seu bom e adorado Chevrolet 49 verde, onde todos os dias eu pegava carona para ir à escola, juntamente com seu filho e meu amigo Milton Mendes.
Não posso esquecer do senhor Armínio, dono do posto de gasolina, na esquina da Avenida Santo Amaro com a Rua Prof. Vahia de Abreu, do Engenheiro Paulo Emilio Bezerra, que durante anos e anos construiu um iate em sua garagem, de seus filhos e meus amigos, Toninho, Lucia, Paulo Emilio, Renata.
Dos nossos queridos amigos alemães (Werner e Edgar), da turma da Vila de Cima e da Vila de Baixo (vilas de casas situada na Rua Vahia de Abreu entre a Avenida Santo Amaro e Rua Baluarte).
Da turma da Rua Baluarte e do pessoal que se encontrava na lanchonete Pitomba, na Avenida Santo Amaro, entre a Rua Casa do Ator e Gomes de Carvalho.
Lanchonete Pitomba que se tornou ponto de encontro dos amigos, e de onde saíamos sempre para nossas festas, bailes e as famosas domingueiras do Círculo Militar, o ponto de reencontro quando retornávamos dos mesmos.
Lanchonete Pitomba, que nos inspirou a criarmos a Escuderia Pitomba, tornando-nos um dos maiores participantes de diversas gincanas, na época, promovido pela TV Bandeirantes (se não me engano) e pela TV Record.
Saudade dos anos 70, quando nosso país foi tricampeão, a grande festa e grande farra que ocorreram em nossa rua, conforme nosso amigo Alceu Mendes (o famoso Milhão) já descreveu em suas histórias.
Hoje vejo a nossa velha Vila Olímpia, totalmente mudada, com prédios residenciais e comerciais em quase toda sua extensão.
Já não existem mais os pequenos campos de futebol, os pequenos grupos de amigos reunidos na rua até tarde.
Apenas quando por lá passo, e faço questão de passar sempre, volta a imagem daquela bela época que vivemos, toda nossa infância e adolescência, recordando de todos os amigos, que por diversos motivos e pelas conseqüências da vida deixamos de nos encontrar.
Hoje estamos numa luta, luta para reencontrar os velhos amigos da Vila Olímpia e da Escuderia Pitomba.
Já estamos no quinto encontro, conseguimos reunir quase 20 amigos de nossa infância e adolescência.
Com certeza conseguiremos reunir muitos outros amigos e para sempre levarmos o nome de nosso bairro como berço de uma grande família e perpetuando-o como Vila Olímpia, morada dos deuses, deuses esses que nos deram a felicidade de ter uma bela turma e uma grande história.
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