Quis rever lugares da infância e adolescência, em Vila Mariana. Refiro-me à jurisdição do SUBDISTRITO de Vila Mariana, já que – no mapa do guia de ruas – se trata de (distrito) Moema. Informa o mapa que, de Tutóia "para baixo", é Moema. Isso, para a Municipalidade.
Rua Curitiba. Minhas lembranças retrocedem a 1953. Tinha 6 anos. Fui matriculado no então "Parque Infantil do Ibirapuera", precursor da atual EMEI Heitor Villa-Lobos. De fronte à Tumiaru. Edificação que, observada da rua, ao que tudo indica é a mesma! Lugar maravilhoso! À época, dispunha de horta, amplos gramados e muitas árvores, enorme pista circular para a molecada correr. Tinha dentista e médico pediatra. Lanche (atual merenda) e banho, à hora da saída. Algum contemporâneo estará sintonizando? Ao lado da atual EMEI, onde é o Modelódromo do Ibirapuera, ali era terra: arremedos de campos de futebol, de várzea. Lembro-me, já mais vagamente, de fases da construção do Ginásio do Ibirapuera e do Velódromo, ao lado. A Curitiba, à época rua tranqüila, como todas da circunvizinhança, era cortada pelo ônibus 48 – Paraíso/Anhangabaú. Veículos ingleses ACLO, de barulho e sacolejo inconfundíveis. Ponto final na Pelotas com Amâncio de Carvalho. "Paraíso"? Não, lá é Vila Mariana.
Pirapora, Joinville, Luís Gotschalk, Vítor Brecheret (ex-Rua Luísa, se não me engano)… Tudo rua tranqüila, à época. Não obstante a floresta de prédios da atualidade, sobrados dos anos 50 remanescem na região… Ruas que terminavam à beira de chácaras, tais como Eça de Queiroz, Artur de Almeida ou Estela. Ou terminavam no "nada", caso de Caravelas e Pelotas. Muitos se lembrarão, a própria Curitiba, sentido da atual 23 de Maio (que nem existia!) acabava em terra…
Com então onze anos, comecei a fazer entregas na tradicional farmácia "Santo Antônio do Paraíso", Amâncio de Carvalho, número 85. Alguém se lembra dela? Aí que, de fato, passei a percorrer ruas de Vila Mariana, com freqüência diária. À época, farmácias da região eram relativamente poucas e "grande" mesmo, só a Drogasil, no começo da Domingos de Morais. Nesta, sim, é que se encontrava o que as outras não tinham e de quem as outras farmácias se abasteciam. Por onde corre a 23 de Maio, trecho Cubatão/Tutóia, eram só chácaras – de portugueses (hortaliças e flores: dálias, rosas, cravos – comercializados no Centro). E onde hoje está a igreja do Santíssimo Sacramento, se não me engano, surgiu, primeiramente, a pequenina Santa Filomena. Lembra, alguém? Na José Antônio Coelho e na Caravelas, sobrevivem os prédios (fábrica e escritório, respectivamente) da Estamparia Caravelas. Hoje, "sumidos" no meio dos altos edifícios.
Tanto na Oscar Porto (começo dela, hoje seccionada pela 23 de Maio), como na Eça de Queiroz, e ainda Pelotas, via apenas algumas das quase ou já centenárias tipuanas que, nos anos 50, orlavam muitas das ruas de Vila Mariana, ruas aliás, à época, de paralelepípedos. Árvores essas incrivelmente resistindo ao tempo, à poluição e à poda, em geral, devastadora.
Casarões da Domingos de Morais, a lendária "Panificadora ABC", o "Cine Phenix", as por muitos anos tradicionais "Lojas Pernambucanas" (Domingos de Morais esquina com Azevedo Macedo); a loja da "Kopenhagen", em cuja vitrina me chamava a atenção (e das demais crianças) um aviãozinho de plástico transparente, réplica do Constellation – recheado de doces! O ponto final do ônibus 10 – Norte/Sul, no Largo Ana Rosa; a loja "A Sensação Modas", em frente à estação dos bondes, onde, por muito tempo, "namorei" um trenzinho a corda, da Metalma, que finalmente ganharia num Natal… Tudo isso, e muito mais, povoa minha memória de Vila Mariana de 50 anos atrás…
Tempo em que as ruas de São Paulo eram iluminadas por lâmpadas de filamento, muito fraquinhas se comparadas às de vapor de mercúrio e de sódio, possantes, de hoje; tempo em que as placas das ruas ficavam pregadas nas paredes das casas – e não espetadas em hastes nas esquinas, como hoje. Aliás, na nossa casa, ainda persiste a placa na parede, como também a menorzinha, "Subdistrito Saúde". E tempo em que os carteiros usavam uniformes de trabalho como se fossem fardas militares… Alguém se lembra?
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