Vidinha de bairro – crendices

Nada se compara a vida nos anos 50, onde começa minha história de vida, e meio século após a mudança foi radical em seus costumes desde as brincadeiras infantis como na vida social e profissional, sem contar com épocas mais remotas a esta data citada, principalmente nos bairros mais afastados do centro.

Já nascíamos pelas mãos de parteiras e quando tínhamos o chamado mal olhado, ali também tinha a benzedeira de plantão e funcionava, quando engasgávamos a mãe logo dizia: “sombrai, sombrai” e depois colocava um algodãozinho na testa da gente e pronto estávamos curados, durante muitos anos não soube o que era essa exclamação, que não é nada mais que um apelo a São Brás, protetor da garganta.

Muitas advertências usadas na época, hoje são lendas, como os pais que avisavam as crianças para não irem muito longe, pois o homem do saco poderia pegá-los, hoje em dia seria o sequestro com mão armada.

Em dias de chuva e relâmpagos, nossa mãe virava o espelho ao contrário ou colocava um pano sobre ele, guardava-se os talheres brilhantes, meu pai não fazia a barba nessas horas. Muitas vezes quando caia um raio, todos se escondiam e muitos acendiam uma vela para proteção, sempre alguém dizia “não se preocupem o raio não cai no mesmo lugar duas vezes”, nos dias de hoje já foi provado que cai sim, inclusive se caiu ali é porque a região é propícia para tal. Quando a chuva era incessante, vi muitas vezes minha mãe jogar sal pela janela da cozinha e ovo para Santa Clara, para amenizar a tempestade.

Era comum freqüentarmos, na infância, uns as casas dos outros colegas e notávamos que cada família tinha uma superstição, lembro de um amigo que a família tinha vários vasos com ervas protetoras de lar, como vaso com sete ervas, vassoura atrás das portas para espantar visita indesejável, espada de São Jorge.

Em nossa casa, minha mãe colocava um copo com água com pedras de carvão, vi muitas casas onde se via uma ferradura atrás da porta da cozinha, principalmente uma ferradura com sete furos, que diziam ser a mais poderosa, outros tinham vaso com uma plantinha chamada trevo, mas a que dava sorte era a de quatro folhas, uma tradição milenar de sorte.

Muitos adultos usavam chaveiro com um pé de coelho, ou uma figa para dar sorte. Outros usavam um ramo de arruda na orelha, recentemente em um campo de futebol varzeano vi um senhor usando, todos olhavam com estranheza aquela atitude.

Outro detalhe no lar que meus pais não admitiam, era deixar sapatos e chinelos com a sola para cima, era sinal de morte em casa ou parentes, meus filhos, acho que nunca souberam disso, pois a desordem sempre foi grande no quarto deles. Encontrar com gato preto pela rua era sinal de azar, todos evitavam e até apedrejavam o animal.

Nas brincadeiras infantis saia até briga se um moleque por ventura pulasse sobre o outro, aquele que foi vítima dessa brincadeira obrigava o outro menino a pular de volta para evitar algo de ruim, como não crescer. Tudo isso sem contar a mistura de certas bebidas com algumas frutas que hoje em dia nada foi comprovada que faz mal. Enfim muitos tabus foram quebrados, excetos alguns como, passar debaixo de escadas, sexta-feira 13, comer nhoque todo dia 29 do mês, ainda conservam algum mito e medo.

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