O centro de São Paulo já foi tema de incontáveis crônicas em jornais, revistas, rádios e sites. Aclamada em belíssimos versos, a região central é um misto de glamour e desilusão. Aquela que já foi uma das mais nobres áreas da capital paulista, hoje agoniza com o descaso dos nossos governantes.
Apesar de ter nascido no centro, ali no Pérola Byington, na Brigadeiro Luiz Antônio, eu nunca morei lá, mas andar por suas ruas é uma coisa bastante comum para mim. Quando garoto meu pai costumava me levar para passear nas praças da Sé, João Mendes, República e Patriarca. Desbravávamos o Vale do Anhangabaú, as Avenidas São João, São Luiz, Ipiranga, Rio Branco e também o Largo do Arouche. Que tempo bom, que infelizmente não vai voltar.
Eu ficava boquiaberto com a grandiosidade dos prédios, o vai e vem incessante das pessoas, a beleza das lojas e a magnitude da Catedral da Sé. Mas uma coisa, que a princípio pode parecer boba, me marcou mais que qualquer outra coisa. Sabem o quê? A visão imponente dos postes históricos do centro de São Paulo. Originais da década de 1920 e fabricados no Canadá e Europa, os postes no estilo "São Paulo antiga" estão presentes em três pontos da cidade: no centro, Museu do Ipiranga e Parque Trianon.
Embora pareçam deslocados no tempo, estes gigantes silenciosos ainda possuem um encanto que cativa quem os vê. Ao cair da noite suas lâmpadas acendem e a luz se faz presente, trazendo tranquilidade. Realmente é incrível a nossa memória afetiva. Imaginem um menino de sete anos impressionado com postes de luz.
Outro dia, lendo as notícias no jornal, os postes históricos foram destaque. Mas, infelizmente, de forma negativa. Segundo o Departamento de Iluminação Pública (Ilume), 20% das 1511 luminárias antigas existentes na cidade já tiveram suas placas de ferro fundido roubadas. Este ato abominável já causou um prejuízo de R$ 60 mil para a prefeitura.
Ainda de acordo com a reportagem, estas peças, que são parafusadas próximas ao chão, são vendidas a menos de R$ 1 em ferros-velhos. Cada placa pesa cerca de 5 Kg, mas como a situação do mercado não é boa, as vendas têm sido fracas, segundo a matéria.
Antes da modernização do sistema de iluminação pública, os geradores de energia eram localizados na base dos postes, protegidos apenas pela placa de ferro, que deveria ser constantemente aberta para manutenção do aparelho. Frequentemente o equipamento também era furtado. A reposição das peças roubadas vai sair caro, em torno de R$ 200 cada uma, em virtude de terem sido fabricadas fora do Brasil há muitos anos.
Uma das alternativas pensadas para proteger as que ainda não foram furtadas, cerca de 1200, seria soldar as peças às bases, mas isso ainda tem que passar pelo crivo dos técnicos.
Espero que uma solução seja tomada, pois tenho apreço por estas luminárias que povoam minhas memórias infantis. Outro dia, na João Mendes, esperando o ônibus para voltar para casa, fiquei fiscalizando os postes que lá se encontram. Algumas pessoas devem ter me achado meio biruta.
Mas não é nada disso, gente. Só estou tentando cuidar de algo que me traz boas lembranças.
e-mail do autor: [email protected]