Viagem a Santos na “Cauda do Cometa”

Os anos eram da década de 50. O meu pai era santista e minha avó morava na Rua da Constituição na Vila Mathias, em Santos, em um casarão que, de tão grande, parte do porão servia de depósito para o Café Jardim (que cheirinho bom).

Aos fins de semana, acordávamos cedinho e, de malas prontas de véspera, pegávamos um táxi até o Largo Ana Rosa. Lá, subíamos no ônibus "NorteSul" e descíamos na Estação da Luz. Comprávamos os bilhetes (dois inteiros e um meia) do Trem Cometa, que partia antes das 7h para Santos.

Na Estação, minha mãe e eu, aguardávamos na sala de espera para damas, o "Cometa" encostar na plataforma de embarque. O "Cometa" era um automotriz e expresso que parava apenas em Santo André, Paranapiacaba e Cubatão, antes de chegar a Santos.

Logo após a saída de São Paulo, lá pela Mooca, ou Ipiranga, passava um garçom com duas sacolas a tira colo e um abridor de garrafas dependurado na cintura. Oferecia-nos sanduíches de queijo, ou presunto, guaraná caçulinha, ou sodinha limonada. Era irresistível e a paisagem que passava pela ampla janela ficava deliciosa ao saborearmos aquelas delícias.

Em Paranapiacaba, com aquele "fog londrino" podíamos descer do trem para aguardar o acoplamento da "locobreque", que sustentaria o nosso Cometa pelos patamares da descida da Serra do Mar (“istema funicular”). Na descida, de patamar a patamar, era possível ouvir o barulho das carretilhas que guiavam o cabo de aço entre os trilhos, enquanto admirávamos – quando a serração permitia – a vista de Santos, os pontilhões, as encostas, os túneis, as quedas d'águas, os trabalhadores da manutenção com suas boinas e cachimbos, bem como, acenar para seus filhos que saiam de suas casas correndo para nos saudar.

Em Cubatão, a “locobreque” se desligava do nosso trem que, como um cometa, corria para Santos e, por volta das 9h, chegávamos a Estação do Valongo. De lá, pegávamos um bonde para nos levar à Vila Mathias.

Acreditem, ás 10h, de shorts, sandálias, chapéu e baldinho na mão, estava eu e meus pais descendo do bonde aberto, na Praça da Independência, “louco de apertado” para fazer xixi (por ter visto o mar). Era no Café do Atlântico que meus pais me levavam ao sanitário. Já, que estávamos ali, meus pais tomavam o famoso cafezinho. Lembro-me que as paredes, do Atlântico, eram revestidas com azulejos brancos, pintados de azul, com gravuras das tropas de mulas subindo o "Caminho do Mar".

Pronto, ás 10h30 estávamos estendendo a esteira nas areias da Praia do Gonzaga, onde ao Sol, nos ombros do meu pai e de mãos dadas com a mamãe, pulávamos as ondas e depois fazíamos castelos na areia.

Que dureza hem? Que estresse que nada. Ah! No domingo à noite, de volta para São Paulo, eu sempre dormia no Cometa.