Viaduto na Mooca

Tempos atrás, tendo ouvido na mídia que comemorava-se o centenário do nosso querido Adoniran Barbosa, de cabeça compus um samba em sua homenagem. Rascunhei a letra, resmunguei uma melodia e guardei.

No começo deste ano, soube de um festival chamado ExpoSamba, patrocinado pela Rede Globo, e resolvi tirar do saco o velho violão e desenferrujar as juntas dos dedos. Faltava apenas um dia para enviar o vídeo, quando tranquei-me no quarto e dei vida e voz ao samba que transcrevo abaixo (a composição foi uma das escolhidas e eu deveria defendê-la em uma unidade dos CEUs da Prefeitura. Só que não sei por que cargas d'água, direcionaram-me para… Taubaté. Não encarei a viagem e guardei novamente a minha cria).

Bom, espero que gostem, quem quiser ouvi-lo pode acessar o meu blog, onde o disponibilizei: microrelatosdocheeko.blogspot.com.

Viaduto na Mooca – Um Tributo a Adoniran Barbosa, de Chico Pascoal.

“Quando os homes derrubaram a nossa saudosa maloca,

eu, Matogrosso e o Joca fumo procurar um lugar pra nóis morar.

Num baita de um viaduto na Radial Leste, no bairro da Mooca,

da garoa e do frio de São Paulo, nóis viemo se abrigar.

 

Não é lá essas coisas mais já serve.

Deus olha sempre por quem não tem vintém.

Mermo com o barulho dos trem e o vaivém dos automóver,

as coisa se arresorve e nóis ficamos bem.

 

Dá inté pra ir de pé pro Tatuapé – Fazendinha,

assistir os treno do Coringão.

Na vorta nóis cata lata, garrafa pet e papelão.

Já dá pra garantir o mé, a mortandela e o pão.

 

Nóis só tem paúra mesmo é dos fiscal da Prefeitura.

Vai que arguem nos dedura e os homes arresolve vir nos perturbar.

Com ordem de despejo, mandato, meganha, cachorro e viatura.

Se bota nóis de novo no olho da rua, vai ser uma tortura.

 

Não tá fácil não, Zé.

Num tá fácil mesmo.

A coisa tá feia, rapaz,

num tem meio termo.

 

Não tá fácil não, Iracema.

Num tá fácil mesmo.

Mas nóis confia,

Deus dá o remédio conforme o enfermo”.