O Vestido de Noiva do IV Centenário
Ao entardecer do dia de São Pedro, em 1953, chegaram em São Paulo: Zé Chiachio, Maria do Rosário, Zina, Lene, Dito, Fia (Maria Inêz), João e Zé Marcos.
Paradoxal, mas no dia de São Pedro, São Paulo os acolheu.
Um típico frio de inverno, porém menos intenso do que o do Paraná. Saíram de Botelhos, Sul de Minas, para tentar a vida em Ivaí (Paraná). Nada deu certo por lá.
– Bem pessoal, vamos descarregar a mudança que já chegamos. Disse Zé Chiachio, o chefe da família.
Porém, ao se aproximar da casa, onde pretendia morar, uma surpresa desagradável.
– Esta casa já está alugada. Disse uma senhora.
– Mas eu deixei tratado o aluguel com o Sr. Romão!!! Retrucou, Zé Chiachio, já demonstrando desespero.
– Pois é, falei com o Sr. Romão e ele me disse que quem queria alugar não pagou o depósito, por isso achou que tinha desistido, então alugou pra mim. Respondeu dita senhora.
– Não é possível!!! O que vou fazer agora? Estou com toda a minha família no caminhão, viemos de Ivaí, pra lá de Londrina, no Paraná. Faz uma semana que estamos viajando. Replicou Zé Chiachio, em total desconsolo.
Sr. Atílio, impaciente, queria descarregar a mudança, em qualquer lugar porque já tinha frete contratado para voltar pra Londrina.
Zé Chiachio, guarda-livro de profissão, embora sua especialidade fosse pintor de faixas e placas, com 51 anos, não arranjava emprego, ou melhor, não parava em trabalho algum.
Zina, a mais velha, estava com casamento marcado para abril de 1954, em Botelhos, mas ainda não tinha uma só peça do seu enxoval.
Lene, no auge dos seus 18 anos, já lecionava em escolas públicas, embora ainda não tivesse concluído o Colegial.
Dito e Fia, com 14 e 10 anos, respectivamente, mal freqüentaram escolas.
João e Zé, crianças, com 7 e 5 anos, apenas comiam, dormiam e brincavam.
Maria do Rosário, só fazia acompanhar, pacientemente, Zé Chiachio, depois que deixaram São Gonçalo, pulando de casa em casa e cuidava de todo mundo, indagou:
– E agora Zé, pra onde vamos?
– Uai pai, não temos onde morar? Perguntou Zina, meio esbaforida.
– Meu Deus do céu, o que será de nós!!! Exclamou Lene.
– Uai, nós dormimos debaixo da lona do caminhão. Sugeriu Dito, acreditando que a farra de dormir debaixo da lona, durante a viagem, poderia continuar.
Toda aquela algazarra familiar, em frente sua casa, chamou atenção de Dona Mulata.
Vendo o caminhão com a mudança e toda aquela família, pai, mãe, três filhas, um adolescente e duas crianças, sem lugar pra morar, propôs:
– Olha, tem uns cômodos nos fundos da minha casa, que não ocupo. Se quiserem podem morar nele até acharem outro lugar.
Sem titubear, Zé Chiachio pegou a chave e mandou descarregar a mudança.
Quarto, sala, cozinha e banheiro, todos pequenos. Mas era a salvação.
Rua Cajurú, 11 – fundos – Jabaquara.
Bendita Dona Mulata!!!
Bem, já tinham onde morar. Tá certo que espalhavam colchões pelo quarto, sala e cozinha pra dormir, mas tinham um teto.
– E agora Zé? Estamos aqui em São Paulo, morando de favor num cubículo, sem dinheiro, você sem emprego, com as meninas e crianças. Como e o quê vamos fazer? Indagou Maria do Rosário com a cabeça envolta nas mãos, desconsolada, como se não estivesse acostumada com as peripécias do marido.
– Calma Maria! Pra tudo se dá um jeito. São Paulo é terra de todo mundo. Esta cidade recebe e acolhe todo mundo que vem pra cá. Quem sabe aqui damos um jeito na vida.
E os vaticínios de Zé Chiachio começaram a dar certo.
No dia seguinte, Dona Mulata ao saber que Dona Neusa, que morava no início da rua Cajurú, procurava costureiras, arranjou emprego pra Zina e Lene na fábrica de roupas AB, na Av. Jabaquara.
Bendita Dona Neusa!!!
Zé Chiachio arranjou dinheiro emprestado com seu irmão Paulo, que morava lá pelos lados da Saúde.
Já tinham alguma coisa pra comer.
Dito e João se juntaram a Noé e Luis Carlos, outros moleques da rua Cajurú e foram catar ferro velho. Isso quando não jogavam bola no campinho improvisado no terreno baldio em frente casa. Mas sempre arranjavam uns trocados.
E a vida foi levando-os…
Terminava 1953. E o casamento da Zina no ano que vem? Como comprar o vestido de noiva? Matutavam Maria e Zina. Com o resto do enxoval então nem se preocupavam.
Dona Neusa precisava de costureiras pra fazer bandeiras, faixas e flâmulas para a grande comemoração do IV Centenário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1954.
Bendito IV Centenário!!!
Mãe, Zina e Lene assumiram com Dona Neusa toda a confecção.
Com o dinheiro extra, daria pra pagar o vestido de noiva da Zina.
Como fazer? Uma só máquina de costura pra três costureiras?
Mãe costurava o dia inteiro.
Zina e Lene se revezavam depois que chegavam do trabalho. Uma costurava até de madrugada enquanto a outra dormia. Depois, invertiam. Quando as três estavam acordadas, uma cortava; outra chuleava; a terceira costurava.
Até a Fia ajudava. Escolhia feijão, lavava arroz, lavava louça, separava os tecidos e outros afazeres, enquanto as demais costuravam.
Sábado e domingo costuravam o dia inteiro e a noite toda, revezando-se na máquina.
Domingo de manhã, Zé Chiachio pegava Dito, João e Zé Marcos e iam ver futebol no campo do Estrela da Saúde. Assim, as três costuravam sossegadas.
Natal? Faixas, flâmulas e bandeiras. Ano Novo? Mais faixas, flâmulas e bandeiras. Papai Noel, peru, ceia só na fantasia de cada um. Cadê dinheiro??
Tecidos, listas, emblemas de São Paulo se espalhavam pela casa toda.
É fácil cortar, chulear, costurar três listas, vermelho, branco e preto todas na mesma ordem e disposição em dezenas e dezenas de faixas?
Como costurar e chulear os emblemas de São Paulo? Como pregar os ramos de café?
– Non dvcor dvco? O que é isso mãe? Perguntava Dito curioso.
– Sei lá menino … Não me amole que tenho que montar e pregar esta figura num monte de faixas e bandeirolas. Respondia Maria do Rosário, já despachando o curioso.
– Mas esses galinhos, pra que serve? Insistia o pentelho.
– Isso não é galhinho, seu bobo; advertia Lene.
– Isso significa os pés de café que são plantados em São Paulo; ensinava a professora.
Freneticamente as três costureiras não paravam. Ainda bem que a velha máquina Singer não tinha motor, senão fundiria de tanto trabalhar.
E cada lote de faixas, bandeiras e flâmulas entregue e recebida a paga, imediatamente o dinheiro era levado para Dona Zeta que fazia o vestido de noiva da Zina.
Enfim, no dia 23 de janeiro, entregaram o último lote de faixas, bandeiras e flâmulas.
Mãos e pés inchados, dedos calejados finalmente descansaram. Mas valeu a pena. O vestido de noiva estava pago e a Zina já começava a montar seu enxoval.
No dia 25 de janeiro de 1954 a família toda foi pro centro da Cidade, no Anhangabaú, ver as comemorações do IV Centenário.
A cidade toda em festa.
Por toda parte ecoava Mário Zan.
São Paulo, terra amada,
Cidade imensa, de grandezas mil!
És tu, terra adorada,
Progresso e gloria, do meu Brasil!
Ó terra, Bandeirante,
De quem se orgulha, a nossa nação!
Deste, Brasil gigante,
Tu és a alma e o coração!
São Paulo, terra amada,
Cidade imensa, de grandezas mil!
És tu, terra adorada,
Progresso e gloria, do meu Brasil!
Ó terra, Bandeirante,
De quem se orgulha, a nossa nação!
Deste, Brasil gigante,
Tu és a alma e o coração!
Salve o Grito do Ipiranga,
Que a história consagrou!
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil, se libertou!
O teu IV Centenário,
Festejamos com amor,
Teu trabalho fecundo mostra,
Ao mundo inteiro, teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do Bandeirante destemido,
Um mundo de arte e beleza,
Em ti, tem sido construído!
Tens tuas noites adornadas,
Pela garoa, em denso véu!
Sobre os teus edifícios,
Que até parecem chegar ao céu!…
– Mãe, mãe, Zina, Zina, Lene, Lene olhem as costuras que tavam lá em casa!!!! Gritou João estupefato ao ver os postes enfeitados com as bandeiras, flâmulas e faixas.
– Nossa Senhora Aparecida como ficaram bonitas!!! Exclamou Zina já com os olhos lacrimejando.
– De tão lindas que estão, nem tô sentindo os calos e os pés inchados de tanto costurar!!!! Balbuciou Lene, tomada pela emoção de ver o trabalho feito.
– Eh, eh, eh Maria, valeu a pena o trabalho de vocês !!! Completou Zé Chiachio.
– Valeu foi um vestido de noiva. Arrematou Dito, lembrando do dinheiro ganho.
– Bonitas as faixas, flâmulas e bandeiras. Muito lindas!! Comentou uma senhora ao lado.
– Muito bem feitas. Os distintivos da Cidade estão perfeitos. Não tem nenhum com defeito, como é que será que foram costurados? Perguntou sua acompanhante.
– Ah, devem ter importado de algum lugar. Tá muito bonito mesmo. Vai ver que gastaram um dinheirão pra trazer isso tudo de fora. Sentenciou a outra.
Mãe, Zina e Lene se entreolharam. Começaram a rir. Também quem iria acreditar que foram elas as costureiras das faixas, flâmulas e bandeiras do IV Centenário? Pobres, humildes e anônimas naquela multidão!!!
– Vamos, vamos, vamos lá ver o caminhão com o bolo de aniversário. Apressou Zé Chiachio puxando mulher, filhas e filhos.
De fato, um caminhão com um bolo enorme e a rainha da Cidade e do IV Centenário aguardava próximo a Av. São João para desfilar pelo Vale do Anhangabaú.
– Tem muita gente lá Zé!!. Tô cansada. Vamos ficar aqui mesmo. Daqui dá pra acompanhar todo o desfile. E além disso, tô gostando de ver as bandeiras e faixas que nós fizemos. Pra mim tá muito bom ver os postes todos enfeitados com nosso trabalho. Resmungou Maria do Rosário, sem sair do lugar.
– E pega um pouco o Zé Marcos que tô cansada de ficar com ele no colo!!!. Disse Maria do Rosário jogando a criança no colo do pai.
– Eu também tô admirando. Nunca pensei que fossem ficar tão bonitas! Exclamou Zina.
– Se tivesse uma máquina de tirar fotografia… Resignou-se Lene.
E nem prestaram direito nos desfiles. Só admiravam as fanfarras, bandas e grupos representativos desfilando em comemoração ao aniversário e IV Centenário da Cidade.
– Que beleza esta banda desses guardas, ein pai? Perguntou Dito.
– Isso não é banda, é fanfarra; e não é guarda; é o Corpo de Bombeiros. Explicou Zé Chiachio.
– Acho que vou ser bombeiro quando crescer!!! Desejou Dito.
– Quem sabe, quem sabe. Retrucou Zé Chiachio.
E chegou a noite.
Um avião fez vôo rasante sobre o Vale do Anhangabaú jogando pequenos triângulos de papel alumínio que iluminados pelos holofotes pareciam flocos de neve. E o povo todo vibrou.
– É… tá muito bonito, mas vamos embora que temos que pegar o ônibus pro Jabaquara, lá na Praça da Sé. E esse menino tá muito pesado. Reclamou Zé Chiachio, com Zé Marcos no colo.
– Eu gostei mais de ver as bandeiras que nós fizemos. Comentou Zina.
– Ah… Eu gostei das bandas, cada uma mais bonita que a outra. Emendou Dito.
– Eu gostei de tudo. Ainda mais da chuva de papel picado. Opinou Fia.
– Eu quero mais pipoca. Reclamou Zé Marcos.
Tomamos o ônibus de volta pro Jabaquara.
Mãe, Zina e Lene mal continham a emoção, pela alegria de terem participado, às duras penas, daquela data tão festiva. Afinal, foram participantes diretas do embelezamento da Cidade de São Paulo em seu memorável IV Centenário.
E voltaram para a dura realidade, no quarto, sala e cozinha, lá na Rua Cajurú, no Jabaquara, as costureiras do IV Centenário.
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Há 52 anos, quando São Paulo tornou-se quatrocentona, nos proporcionou não só a alegria pelo vestido de noiva da Zina, mas também acolheu essa Mineirada de Botelhos, do Sul de Minas, vindos desiludidos do Paraná e que possivelmente ninguém sabe, contribuíram para o seu embelezamento, no seu maior aniversário.
“São Paulo que amanhece trabalhando…”
“São Paulo que não pára de crescer…”
São Paulo onde há milhões e milhões de anônimos, nascidos aqui ou que para cá vieram dos mais longínquos lugares e rincões desse Brasil, e que são apaixonados por ela.
Parabéns, São Paulo!!!
São os cumprimentos da família Chiachio.
São Paulo, 25 de janeiro de 2007.
Autor: João Batista Chiachio.
Natural de Caconde-SP, nascido em 10/03/1946. Filho de José Chiachio e Maria do Rosário Chiachio, tradicional família mineira de Botelhos, Sul de Minas. Casado com Elza do Carmo Fleming Chiachio. Dois filhos: André e Giselle e 3 netos – Laura, Maria Eduarda e Lucas. Advogado graduado pela USP (São Francisco) em 1973, com especialização em Direito Empresarial, Tributário e do Trabalho e Pós graduado em Processo Civil.
e-mail do autor: [email protected]